Titicaca

Segue belíssimo texto da coluna Outro Olhar sobre aquela imensidão azul que me dava tanta saudade da minha terra quando estava lá… e que hoje me dá tanta saudade de lá quanto estou aqui. Curiosamente, me deparei com esses escritos exatos quatro anos após a viagem. Espero que apreciem tanto quanto eu!
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Titicaca, uma viagem

O shamã (“paq’o”) levantava até os olhos as pequenas folhas de coca, murmurando e invocando em quéchua os pedidos de proteção, e colocava as três folhas oferecidas no pequeno monte aos seus pés, em meio a sebo e lã de ovelha, milho, flores. A cerimônia já durava duas horas, sempre regada a goles de álcool puro e chicha, na invocação dos “apus” (espíritos das montanhas), de Pachamama (a deusa, a mãe terra), entremeando cada chamado com o sinal da cruz. Um sincretismo ligado à pura sobrevivência, na tentativa de manter o credo antigo e não ofender o Deus dos invasores espanhóis.
Então, abrindo um pequeno espaço no círculo de oferendas e apanhando um punhado de folhas de coca do monte ofertado, o shamã passou a deixar que as folhas caíssem de sua mão, como uma chuva verde que ia se depositando, formando posições, desenhos observados com atenção e murmúrios. E os presságios vieram. Respostas cifradas às perguntas que atormentam. Presente, futuro, felicidade, vida. Ao lado, um dos últimos dos grandes tecelões do Titicaca interpretava as palavras desconexas, que borbulhavam da boca aberta, rasgada, do rosto febril do curandeiro em transe.
Lá fora, a noite de lua lançava sua luz sobre o lago de pequenas ondas, que transmitiam um movimento de calma, equilíbrio, e se perdiam ao sul, onde os nevados da distante Bolívia mostravam seus cumes brancos. Na pequena casa de adobe construída em mutirão pelos amigos do tecelão, portas e janelas fechadas, apenas as pequenas velas de sebo de ovelha resplandeciam e faziam as sombras se moverem a cada movimento do shamã. Silêncio. Às escondidas. Como no passado. Fugindo da nova fé imposta, renovando as noites imemoriais de um povo, mantendo viva sua ligação com os deuses e povos antigos, já retornados à mãe terra.

Ao final, tudo foi queimado na madrugada, e lançado à terra no primeiro e fecundante raio de um sol inca, sem deixar rastro, vestígio, prova. Apenas em nós, para sempre.
De manhã, na mesa, nos entreolhamos em silêncio. Cumplicidade. E comemos nossas batatas (são tantas), milho (vários) e o chá de munha. Saímos para o dia claro, sem nuvens, abraçamos nosso amigo, um abraço de humanidade e agradecimento, envergamos as mochilas e seguimos o passo, para o barco, para Puno, a civilização, a vida na qual fomos criados. Tão diferente.
Horizonte azul, branco e ocre
O Titicaca dispensa informações geográficas, já muito conhecidas. Mas, quem o vê, se impressiona com o tamanho, a profundidade, a paisagem, o vento. É muito bonito, transmite paz e algo antigo, muito antigo, em cujas margens inúmeras civilizações, línguas, secas, guerras (a última, com a dos terroristas do Sendero Luminoso, que, dizem, causou 50 mil mortes), deixaram marcas, ruínas, e uma forma de enfrentar a vida com estoicismo, profundidade, amor. É o que se sente ao deixar o olhar abarcar o horizonte azul, branco e ocre, no topo da ilha de Taquille, numa visão apenas cortada pelas construções de pedra superpostas por invasores (Pucara, Tiahuanaco, Incas e espanhóis) no centro cerimonial que, até hoje, revela as marcas, antigas e atuais, de pequenas oferendas a Pachamama, desafiadoras da religião católica presente e forte na ilha.
A subida é estafante e o topo se situa a 4200 metros, onde se chega pelas onipresentes escadarias de pedra, desafios dos Andes aos nossos pulmões da beira-mar. Mas, na porta de “doble ramba”, sinal de lugar sagrado, quando se encontra o marco lítico com os dois rostos desgastados pelo tempo e pelos esforços dos jesuítas em extirpar as idolatrias, algo nos amedronta, e nos toma, e nos vemos, como há milhares de anos, olhando a mesma paisagem e sentindo as mesmas sensações dos antigos andinos.
Taquille tem cerca de 5 por 2 quilômetros. É rocha vulcânica que emerge do lago, um contraste do ocre com o azul da água, do céu. Desde cerca de 6 mil anos, a presença humana é registrada e, conta-se, os terraços escavados para agricultura foram preenchidos com terra trazida das penínsulas de Conchico e Capachica, que se aproximam ao norte da ilha e formam a grande baía onde se localiza Puno, o totoral e as aldeias flutuantes do povo Uros. O isolamento formou uma comunidade auto-suficiente com costumes próprios e uma forte ligação com a terra.
Cada família possui uma área agricultável em cada uma das seis partes (“suyos”) em que foi dividida a ilha, pela sabedoria dos lavradores na preservação do solo. Assim, a cada ano, um ou dois dos espaços é lavrado, descansando os outros. E a plantação, com um calendário bem estabelecido, é feita segundo os ritos antigos, onde o principal e primeiro e longo labor é a interpretação dos sinais da natureza (onde o pássaro faz o ninho, a forma como certas árvores estão em junho/julho, o frio, o vento que se sentiu na estação invernal etc.) que determinarão quando, onde e o que plantar.
No passado, o excedente era levado ao continente. Hoje, a produção da ilha – trigo, batatas, milho, cevada, quinoa, oca, favas – apenas dá para o consumo interno, em constante elevação pelo crescimento populacional e a consequente divisão do solo pela herança. “La tierra se achica” diz Alejandro Flores Huatta, de uma das mais antigas famílias da ilha.
Por isso, a transmissão por herança, para não fragmentar a terra, privilegia aquele que será o responsável pela sobrevivência dos pais já incapazes de se manter. É o “chanaku”, o filho que deve continuar a obra na terra e a quem competirá a maior parte da área dos pais. A história da ilha é rica em exemplos de sobrevivência e adaptação do povo aos conquistadores antigos e novos, e do enorme amor a sua terra que foi provado no século passado. Vamos à história.

Pela posse da terra

Os últimos invasores espanhóis chegaram à ilha com Pedro Gonzáles de Táquila, vindo de terras andaluzes, e que havia adquirido a ilha da coroa espanhola em 1580. De sua ocupação decorreu uma curiosa transformação na roupa usada pelos ilhéus, que hoje vestem um traje que se assemelha ao ibérico (calças e colete negro, camisa branca, sandálias, faixa na cintura, gorro comprido e bordado). E a faixa da cintura, tecida com cabelos humanos e fios coloridos, é o que protege a corpo no transporte de enormes cargas pelos difíceis caminhos da ilha, onde não existem animais para tal serviço.
Durante 400 anos a ilha foi propriedade de fidalgos “criollos” e moradores de Puno (“mistis”) que exploravam o solo, em sistemas de feudo e de parceria com os antigos habitantes. Então, após a Independência do Peru, em 1930, começa a grande cruzada pela recuperação da terra, relatada por Jorge Gimenez, professor formado em Paris e um dos líderes na defesa e atendimento das populações do Titicaca.
Conta “el professor Jorge” que, funcionando na ilha um presídio, um de seus apenados, Luiz M. Sanchez, se tornou amigo de um dos líderes campesinos da ilha, Prudencio Huatta e, em uma das reviravoltas políticas que marcaram a história peruana, se tornou seu presidente. Prudencio, então, empreende uma longa viagem até Lima, onde chega após muitos meses e provações, e tenta ser recebido pelo amigo. Conta a história que o ilhéu esfarrapado, na tentativa de ser recebido, foi cercado pelos guardas do palácio em um tumulto que atraiu à janela o presidente. Reconhecendo o amigo, os dois passaram uma noite longa em que a vontade do lavrador, que imaginava poder seu amigo determinar a entrega da ilha aos seus antigos donos, se chocava com a do político, que defendia a lei e a propriedade dos então donos e os limites do poder presidencial.
O certo é que, pela manhã, Prudencio Huatta saiu de Lima com a decisão de que a terra deveria ser vendida, e que apenas os habitantes de Taquille poderiam adquiri-la. Em 1932, morre Luiz Sanchez, mas o processo já estava em curso e, em 1937, se realiza a primeira compra, escriturada em 1942. Daí em diante, até 1967, quando se completa a reocupação de toda a ilha, transcorre uma luta diária de cada um dos ilhéus para conseguir comprar os espaços que já ocupavam, com os pais, filhos e netos saindo de Taquille para trabalhar no continente e, a cada ano, juntar o conseguido e comprar, às vezes, uns poucos metros quadrados.
Hoje, Taquille é inteiramente dos descendentes daqueles que, em 1532, assistiram à chegada do último conquistador. Um exemplo de amor, dedicação, sacrifício pela terra que nunca deixou de ser deles. E que defendem e preservam, e com ela vivem em singular, afetivo e emocionante equilíbrio, algo ditado e ensinado por gerações de andinos acostumados a tirar do duro solo a comida, a paz.

Tecendo a unidade familiar

Fala o mestre Alejandro Huatta: “La tierra para nosotros es lo más importante. Dependemos de la tierra para todo y tenemos una relación de amor y respecto por ella. Por eso vemos los signales que ella nos manda y hacemos las cosas de acuerdo con esto”.
E como preservar a vida e o equilíbrio futuros na ilha, senão influenciando na formação dos novos núcleos familiares? Afinal, a comunidade, para se manter, precisa ter certeza de que aqueles jovens que se atraíram serão úteis à vida de todos, alcançando o equilíbrio necessário e fecundo de um casal, com filhos e respeito às tradições. Então, por centenas de anos, o processo para que dois jovens pudessem se amar e formar “una pareja” foi se aperfeiçoando.
Hoje, em franca crise pelos novos aportes culturais que influenciam os jovens, mais um exemplo de como uma comunidade pode se proteger. É o “sirvinakuy”. Inicia-se pela declaração de interesse do varão pela menina. A seguir, o jovem tece um pano que é apresentado à família da pretendida para exame acurado da capacidade do jovem em trabalhar em uma das mais importantes atividades da ilha, o nível técnico, a objetivação no fazer, a dedicação, tudo traduzido no trabalho tão importante.
Não é preciso dizer que é comum ver pequenos homenzinhos, crianças ainda, tecendo furiosamente pelas vielas de pedra, sonhando com uma futura companheira… Aliás, no barco de retorno a Puno, demos carona para um menino de 10 anos que, isolado num canto da embarcação, teceu, durante todo o tempo (quase cinco horas) da navegação, um pequeno e bonito gorro. Frente ao espanto e certo preconceito dos civilizados presentes, tive que informar porque ali estava um verdadeiro e promissor projeto de “homem”.
Aprovado o trabalho, os jovens são autorizados a conviver, e constroem uma pequena habitação (algo como 3 ou 4 metros quadrados) e ali iniciam um longo e difícil período de adaptação, convivência, em que provam sua capacidade de dividir espaço (tão exíguo), ego, temperamento, opinião. Cumprido o prazo, não menor que um ano, os dois desmontam a casinha, a noiva volta para os pais para formar o enxoval, e o jovem vai trabalhar no continente durante alguns anos para juntar o dinheiro necessário para iniciar a vida comum. Então, ele volta. E uma grande festa de três dias acontece, com bebidas, comidas, danças e a doação de um pequeno terreno onde a casinha é refeita, já com outro espaço. E a vida se inicia, e à comunidade resta boa certeza que um casal que passou por todas as provas anteriores tem uma enorme chance de dar certo e solidificar e continuar a vida taquillena. E, a qualquer momento, a experiência pode ser interrompida por qualquer um dos dois, retornando à vida solteira. Pois o mais importante para os dois e para a comunidade é que não haja dúvida sobre o acerto da união.
Está tudo ali. A prova de que os dois podem trabalhar e sobreviver, dividir espaço, enfrentar solidão e afastamento, conhecer-se a fundo, inclusive sexualmente, antes de se decidirem como casal. Um tempo precioso e importante que nós perdemos quase sempre na vida sôfrega, aparente e rápida das cidades.
Sob pressão
A ilha, como toda a região do Titicaca, sofre as enormes e transformadoras influências de uma cultura globalizada que ali aportam com os turistas (o primeiro chegou em 1971), as organizações estrangeiras que fazem trabalhos comunitários, as igrejas diversas, a Internet, a bebida, os alimentos industrializados que, vendidos em pequenas bodegas, causam a seus donos o afastamento da terra, e o choque das gerações antigas e novas na observância dos costumes e tradições que sustentaram a comunidade por milênios.
Conforme reconhece Alejandro Huatta, “todo está cambiando, y tengo preocupación con las nuevas generaciones. Los jóvenes quieren todo más rápido. Y el turismo debe ser controlado para que se mantenga nuestra vida, nuestras costumbres y cultura. Todavía, para tanto, es necesario, también, que se obtengan informaciones, educación, nuevas profesiones para los jóvenes, mismo para proteger a nosotros, pues hacemos parte del mundo”.
E o mundo à volta do Titicaca está a exercer toda a pressão da civilização sobre o frágil e, por tantos séculos, equilibrado ecossistema. Meneleo Guispe, guia de 45 anos, nascido na Península de Capachica, relata que a transformação é visível e acelerada nos últimos 10 anos, com grandes projetos na selva, mineração, a hidroelétrica de Puerto Maldonado e a prospecção de petróleo a impor ao lago uma crescente poluição e mudança nos costumes, no trabalho e no clima, este agravado pelo aquecimento global e perda das geleiras que renovam a água e possibilitam a manutenção das plantações e a sobrevivência dos habitantes do altiplano. “Vamos a sufrir y pelear por el agua” diz Meneleo.
Alejandro Huatta, 58 anos, tem rosto, profundidade e jeito de andino. O sorriso afável que se abre na boca rasgada, quando percebe que o outro busca algo comum a todos da espécie. A simpatia no oferecimento da folha de coca que inicia cada conversa com os ilhéus. A face curtida do ar seco e sol e frio fortes, as mãos calejadas do trabalho nos terraços. Mãos, todavia, que agem com afetiva delicadeza ao tecer os maravilhosos panos em teares manuais (são mais de 400 artesãos na ilha), com fios (finíssimos) de ovelha, alpaca, lhama, que são cardados, fiados e tingidos com técnicas ancestrais e naturais. Tudo de uma impactante beleza, com padrões próprios em longas faixas multicoloridas, e de impressionante dificuldade para serem tecidas, que contam o dia a dia, os sonhos, as relações com a terra e com os deuses antigos, os pássaros, os animais, a natureza, os costumes, a história.
Por sua arte, viajou para vários países (Estados Unidos, Polônia, Inglaterra, França, Canadá, Dinamarca) e tem trabalhos em muitos museus que preservam a arte têxtil. “Tejemos nuestra vida y nuestras relaciones con todo lo que somos y que creemos. Conto mi historia y de mi pueblo en los tejidos, y es un orgullo saber tejer. Para poder vestir, trabajar y ganar con su venta. Por tejer yo he conocido el mundo y el me ha reconocido y a la arte de mi pueblo. Tenemos un nombre ahora, y el mundo sabe que existimos. Ahora, tenemos que proteger lo que sabemos, y los jóvenes van a mantener nuestra arte y vida”.
Ao ver os ilhéus com suas vestimentas e signos tão diversos – pois cada desenho/tecido corresponde a um status, uma fase da vida de cada homem e mulher, um aviso de comportamento ou estado próprio – e a maneira simples, e ao mesmo tempo orgulhosa, como se apresentam a nós que os visitamos, a percepção é de algo unitário, profundo, afetivo, existencialmente fecundo e equilibrado, em paz, e que vai durar mais do que muito do que inventamos na urbe para sobreviver às nossas contradições. Que lá, na ilha que corta o horizonte de água do lago, na popa do barco de retorno, não existem.
Voltaremos. Talvez como sobreviventes do caos futuro. Com as lágrimas que fazem tremer os olhos quando a ilha submerge no lago. E na procura da vida na última terra nossa, aquela que há muito deixamos.

31/7/2010

Fonte: ViaPolítica/O autor

Kim Rio Apa é advogado em Florianópolis. Viajante apaixonado, com a companheira Carla, há anos percorre os caminhos andinos e patagônicos em busca de seus segredos. Exímio velejador, é também profundo conhecedor do litoral brasileiro. Junto com o pai, W. Rio Apa, e o irmão Thor, foi um dos organizadores do grupo que promoveu o teatro sacro popular na ilha de Florianópolis, reunindo milhares de pessoas em torno das encenações da agonia de Cristo.

* No original, disponível aqui, a reportagem trás fotos e formatação mais rica. Vai !

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