Gonçalves – MG : trilhar muito, comer bem e gastar pouco

ATUALIZADO EM JANEIRO/2014

Povo Varonil, matas floridas
Fontes e cascatas de belezas mil
O teu céu tem mais estrelas
És mineira És Brasil

Esses aí são os versos que antecedem o estribilho do hino de um dos lugares mais bonitos, românticos e agradáveis das Minas Gerais. Diferentemente das cidadezinhas mais conhecidas do sul de Minas, não há grandes lendas locais, tampouco centros históricos para visitar. Em Gonçalves, o lance é mais direto.

A história é simples. Começa em 1878, na vizinha Itapira, onde um político de nome Policarpo Júnior,  fundador do Partido Liberal de Pouso Alegre, cumpriu uma promessa feita a Nossa Senhora das Dores doando seis alqueires de terra de uma fazenda na divisa entre Minas e São Paulo, para construção de uma capela de sapé e taipa. Residiam no local três colonos matreiros de nome Mariana Gonçalves, Maria Gonçalves e Antônio… Gonçalves.  Os três deram início ao povoado que cresceu lentamente até a Revolução de 1932, quando serviu de entreposto para movimentação de tropas rebeldes e daí pra frente só cresceu. Há, inclusive, um modesto museu aberto ao público em geral, dentro da Pousada do Quilombo, que conta com instrumentos, equipamentos e recortes de jornal da época.

Hoje, Gonçalves vive do turismo ecológico e da terra. Tem IDH abaixo da média nacional, mas seu crescimento é 50% maior que a média mineira e brasileira. Pousadas, restaurantes, pequenos hotéis, ateliés e pequenos produtores de especiarias, geléias, doces e agropecuária vem surgindo com força na região. Se você for pra lá, esqueça turismo de artesanato, religioso ou histórico: Gonçalves é pura mata e comida mineira.

Antes de tudo, você chega lá fácil, fácil: Saindo do Rio, de Sampa ou de qualquer outro lugar, chegue até a Dutra – preferencialmente pelo sistema Ayrton Senna/Carvalho Pinto – e pegue a saída de Taubaté para Campos do Jordão. Rode pela Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro até o trevo em São Bento do Sapucaí (logo após um pontilhão que se destaca na paisagem) e prossiga até Gonçalves, sempre seguindo placas do Sul de Minas. Se quiser um caminho mais roots, pegue a Fernão Dias até a entrada para Camanducaia, em direção a Monte Verde, quebre para Sapucaí Mirim e vá até lá. Pode sair também em Cambuí e seguir na (tranquila e cênica) estrada de chão até chegar. De ônibus, as opções são ir até Itajubá ou São José dos Campos e pegar outro bumba até a vizinha Paraisópolis. De lá você se vira até Gonçalves.

Mas o que tem pra fazer lá? Bóia-cross grau 2 no Rio Capivari (uma hora de descida, mais ou menos) ou nível 3 (3 km de descida, quedas de 3 a 4m e 3h de brincadeira). Ainda na água, cachoeiras por lá não faltam: Fazendinha ( leve, com quedas e lugar para nadar),  Neca  (leve, com travessias bacanas em meio às corredeiras – 3h ida e volta) , Retiro (leve, linda,  meio crowd na temporada, 400m de queda), Simão (ao lado, com poço para banho), Andorinhas (média, sem sinalização, boa para banho e fotografia), Cruzeiro (contemplativa) e Martins (leve ou moderada, você escolhe, com instrutores, tirolesas e poço para banho).

Há trilhas para 4×4 (boas planilhas aqui, aqui, aqui e aqui) bike, cavalgada, rapel (no caminho para Brasópolis, na Pedra da Catedral) e como opção ainda se pode ir até São Bento do Sapucaí (+- 30 km) e curtir uma caminhada de 2h até o Bauzinho, uma pedra ao pé do Baú, de onde parte uma das vias de escalada mais pop do país. Se for mesmo até lá, não deixe de almoçar no melhor restaurante da cidade: Grão do Galo (Rua Coronel Ribeiro da Luz n. 110 – Centro).

Das trilhas, as que mais valem a pena são a do Moinho do Seu Dito Ferreira (3h, 12 km ida e volta),  Pedra do Forno (a mais conhecida, com mata fechada de Araucárias, 1h em mais ou menos 4km ida e volta, com um ótimo restaurante mineiro no início da trilha ), Pedra Chanfrada (bonita pedra, ótima visão,  ao lado da Pedra do Forno, 1,5h e 6km ida e volta, também com um ótimo restaurante na entrada) e Pico do São Domingos (mata fechada, muito bonita, 3h e mais ou menos 7 km ida e volta). Há ainda as trilhas do Campestre (6h), Trilha do Indiana Jones (4h), Pedra Bonita (que dizem ser a mais bacana, mas não há sinalização, tampouco informações precisas – recorra a guias locais), Pedra do Cruzeiro (também chamada de Atrás da Pedra), Serra da Balança (belíssima, por estrada abandonada que vai a Brasópolis) e várias outras que os locais podem informar. Mapas, informações atualizadas e dicas você pode pegar no centrinho da cidade, sempre atualizados.

Comer bem em Gonçalves também é muito fácil. Fuçando na net você encontra recomendações para o Le Gourmet Bistrô (achei muito caro para o que oferece, apesar do ambiente bem bacana), Porto do CéuNó de Pinho (do famoso chef Sérgio Peres – ex-Tordesilhas-SP), Sauá (trutas, bar e fondues) e Toca da Onça (o mais hype do Sul de MG) mas para o mochileiro duro eu não recomendo nada disso. Todos são bem caros e tem um estilinho mineiro-contemporâneo que não combina nem com o bolso, nem com o espírito mochila. Minhas dicas para quem está com falta de cobres e curte uma boa e pesada culinária mineira-caseira é curtir uma ótima cachaça no Alambique Dona Manoela (Estrada São Bento – Gonçalves, Km 4,5, com placas indicativas) e apreciar dois dos melhores self-service rústicos da região: Zé Ovídeo (início da trilha para a Pedra do Forno) e Ao Pé da Pedra (início da trilha para a Pedra Chanfrada). Ambos simples, deliciosos, num ambiente aconchegante e com bela visão para as respectivas atrações. Peça cerveja escura bem gelada no primeiro e suco de amora ou framboesa no segundo. Vale. No Bairro dos Venâncios a opção é o Restaurante da Vilma (self-service farto e com sabor caseiro). Se estiver no centro, coma no Chiquinho (a la carte com buffet de salada; Rua Cap. Antonio Carlos, 345, ). Todos cobram saudáveis e honestos quinze ou mangos pela orgia gastronômica. À noite, há uma lanchonete que serve excelentes hot dogs e lanches ao lado do Posto Ipiranga no centro, que é a opção mais mão-de-vaca. Se quiser gastar um pouco mais, visite o Janelas com Tramelas, que tem ambiente, atendimento e comida excelentes.

Onde ficar? Na net tá cheio de opções, mas vou destacar quatro: Monjolos de Minas (a mais cara, porém mais estruturada, com cavalos, piscina quente e outros mimos, site aqui), Camping (a mais barata, duh, com restaurantinho que quebra o galho, tel: 33-9976-9434) . Um bom meio-termo é a pousada da Dona Manoela que tem uma vista espetacular, chalés muito aconchegantes com lareira e aquecimento à gás para o chuveiro, roupas de cama finas e ótimo atendimento. Se for até lá, bata um bom papo com o Seu José Menino e não deixe de experimentar as cachaças artesananais que ele faz. A famosa cachaça Gonçalves é fabricada no alambique que fica dentro da pousada.

Na última vez em que estive na cidade, no reveillon de 2014, fiquei na Pousada do Rio. Tem ótima estrutura e por estar mais afastada do centro, cobra abaixo da média da região. Possui um living coletivo muito aconchegante, cheio de livros e revistas de viagem, som ambiente e lareira. Tem piscina natural e sauna seca à lenha, envoltas em muito verde e bem próximas do restaurante. Lá é servido um bom café da manhã, com pães de de queijo e panquecas feitos na hora, três tipos de frutas bem selecionadas, aveia, cremes, bolos, café, leite e chocolate, com um pão francês de ótima qualidade e pães de forma que podem ser preparados na torradeira self-service. A localização, apesar de distante 6km do centro, é perfeita para quem gosta de sossego, silêncio e muita mata. Os chalés são bastante aconchegantes, com lareira eficiente, ducha com ótima variação de temperatura, muito limpos, organizados e com roupas de cama novas e limpas. Com taças, frigobar, mesa, rede e televisão com tv a cabo.

Aproveite enquanto a cidade não entra no movimento de campos-do-jordãonização que já começa a invadir Monte Verde  e São Francisco Xavier. Corra pra lá!

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  1. Atualizando: me indicaram nesse feriado de Páscoa o Camping Recanto da Paz, que cobra.R$ 20 por pessoa. Fica muito bem localizado, à cerca de 1 Km do centro, na estrada para Cambuí-MG. Instalações modestas, mas com bom chuveiro quente. Fica a dica.

  2. Confiram também a dica do (excelente) blog Outro Modo de Viajar: http://acessa.me/a7nq

    Trata-se do “Orgânicos da Mantiqueira”, empresa dedicada a distribuição de produtos orgânicos e biodinâmicos, localizada na Serra da Mantiqueira, com sede lá na boa terra de Gonçalves (MG). Os caras produzem tudo sem uso de agrotóxicos e adubos químicos, através de métodos que não agridem a natureza e mantêm a vida do solo intacta, preservando a terra, matas, nascentes e a saúde de quem consome.

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