Gonçalves – MG do tamanho do seu bolso

ATUALIZADO EM JANEIRO/2018

Povo Varonil, matas floridas
Fontes e cascatas de belezas mil
O teu céu tem mais estrelas
És mineira És Brasil

Esses aí são os versos que antecedem o estribilho do hino de um dos lugares mais bonitos, românticos e agradáveis das Minas Gerais. Diferentemente das cidadezinhas mais conhecidas do sul de Minas, não há grandes lendas locais, tampouco centros históricos para visitar. Em Gonçalves, o lance é mais direto.

A história é simples. Começa em 1878, na vizinha Itapira, onde um político de nome Policarpo Júnior,  fundador do Partido Liberal de Pouso Alegre, cumpriu uma promessa feita a Nossa Senhora das Dores doando seis alqueires de terra de uma fazenda na divisa entre Minas e São Paulo, para construção de uma capela de sapé e taipa. Residiam no local três colonos matreiros de nome Mariana Gonçalves, Maria Gonçalves e Antônio… Gonçalves.  Os três deram início ao povoado que cresceu lentamente até a Revolução de 1932, quando serviu de entreposto para movimentação de tropas rebeldes e daí pra frente só cresceu. Há, inclusive, um modesto museu aberto ao público em geral, dentro da Pousada do Quilombo, no local onde uma enorme trincheira foi construída para defender os soldados paulistas. Vale dar uma passada por lá quando estiver a caminho de Gonça (hoje, aquele trecho faz parte da vizinha São Bento do Sapucaí) para conhecer instrumentos, equipamentos e recortes de jornal da época.

Hoje, Gonçalves vive do turismo ecológico e da terra. Tem IDH abaixo da média nacional, mas seu crescimento é 50% maior que a média mineira e brasileira. Pousadas, restaurantes, pequenos hotéis, ateliés e produtores orgânicos de especiarias, geléias, doces e agropecuária vem surgindo com força na região. Se você for pra lá, esqueça turismo de artesanato, religioso ou histórico: Gonçalves é pura mata e comida mineira.

Antes de tudo, você chega lá fácil, fácil: Saindo do Rio, de Sampa ou de qualquer outro lugar, chegue até a Dutra – preferencialmente pelo sistema Ayrton Senna/Carvalho Pinto – e pegue a saída de Taubaté para Campos do Jordão. Rode pela Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro até o trevo em São Bento do Sapucaí (logo após um pontilhão que se destaca na paisagem) e prossiga até Gonçalves, sempre seguindo placas do Sul de Minas. Tudo asfalto. Se quiser um caminho mais roots, pegue a Fernão Dias até a entrada para Camanducaia, em direção a Monte Verde, quebre para Sapucaí Mirim e vá até lá. Pode sair também em Cambuí e seguir na (tranquila e cênica) estrada de chão até chegar. De ônibus, as opções são ir até Itajubá ou São José dos Campos e pegar outro bumba até a vizinha Paraisópolis. De lá você se vira até Gonçalves.

Mas o que tem pra fazer lá? Bóia-cross grau 2 no Rio Capivari (uma hora de descida, mais ou menos) ou nível 3 (3 km de descida, quedas de 3 a 4m e 3h de brincadeira). Ainda na água, cachoeiras por lá não faltam: Fazendinha ( leve, com quedas e lugar para nadar),  Neca  (leve, com travessias bacanas em meio às corredeiras – 3h ida e volta) , Retiro (leve, linda,  meio crowd na temporada, 400m de queda), Simão (ao lado, com poço para banho), Andorinhas (média, sem sinalização, boa para banho e fotografia), Cruzeiro (contemplativa) e Martins (leve ou moderada, você escolhe, com instrutores, tirolesas e poço para banho).

Há trilhas para 4×4 (boas planilhas aqui, aqui, aqui e aqui) bike, cavalgada, rapel (no caminho para Brasópolis, na Pedra da Catedral) e como opção ainda se pode ir até São Bento do Sapucaí (+- 30 km) e curtir uma caminhada de 2h até o Bauzinho, uma pedra ao pé do Baú, de onde parte uma das vias de escalada mais pop do país. Se for mesmo até lá, pode almoçar no restaurante mais badalado da cidade, o Trincheira, ou curtir uma opção de buffet livre mão-de-vaca no  Sabor da Serra (R$30 pp, no carnaval de 2018).

Das trilhas, as que mais valem a pena são a do Moinho do Seu Dito Ferreira (3h, 12 km ida e volta),  Pedra do Forno (a mais conhecida, com mata fechada de Araucárias, 1h em mais ou menos 4km ida e volta, com um restaurante mineiro no início da trilha – Zé Ovídeo – R$30pp), Pedra Chanfrada (bonita pedra, ótima visão, ao lado da Pedra do Forno, 1,5h e 6km ida e volta, também com um ótimo restaurante na entrada – Ao Pé da Pedra R$35pp). Há ainda as trilhas do Campestre (6h), Trilha do Indiana Jones (4h), Pedra Bonita (que dizem ser a mais bacana, mas não há sinalização – recorra a guias locais ou o Wikiloc), Pedra do Cruzeiro (também chamada de “Atrás da Pedra”) e várias outras que os locais podem informar.  Se estiver de carro e não tiver dó, pode subir o Pico do São Domingos ou curtir a Serra da Balança, ambos por estradas em estado razoável de conservação, tranquilas de fazer nas épocas mais secas, mas também legais de fazer à pé pelo baixo movimento de veículos.

Comer bem em Gonçalves também é muito fácil. Fuçando na net você encontra recomendações para o Geminus (o mais badalado atualmente, dos chefs Fernando e Juliano), Porto do CéuNó de Pinho (do famoso chef Sérgio Peres – ex-Tordesilhas-SP), Janelas Com Tramelas (criação também dos famosos chefs do Janelas e Tramelas, hoje em outras mãos),  Sauá (trutas, bar e fondues) Deméter da Terra (R$45pp em 2018) e Toca da Onça (mineiro com toque fusion).

Tá com o cartão estourado? Minhas dicas para quem está com falta de cobres e curte uma boa e pesada culinária mineira-caseira é curtir uma ótima cachaça no Alambique Dona Manoela (Estrada São Bento – Gonçalves, Km 4,5, com placas indicativas) e apreciar dois dos melhores self-service rústicos da região: Zé Ovídeo (início da trilha para a Pedra do Forno) e Ao Pé da Pedra (início da trilha para a Pedra Chanfrada). Ambos simples, deliciosos, num ambiente aconchegante e com bela visão para as respectivas atrações. Peça cerveja bem gelada no primeiro e suco de amora ou framboesa no segundo. Vale. No Bairro dos Venâncios a opção é o Restaurante da Vilma (self-service farto e com sabor caseiro). Se estiver no centro, coma no Chiquinho (a la carte com buffet de salada; Rua Cap. Antonio Carlos, 34). Todos cobram por volta de R$30-35 pela orgia gastronômica. À noite, há uma lanchonete que serve excelentes hot dogs e lanches ao lado do Posto Ipiranga no centro, que é a opção mais mão-de-vaca.

Onde ficar? Os clássicos Monjolos de Minas (super estrutura, com cavalos, piscina quente e outros mimos) e Dona Manoela (vista espetacular, chalés aconchegantes com lareira e aquecimento à gás para o chuveiro) lotam rápido.  Uma vantagem da Dona Manoela é bater um bom papo com o Seu José Menino e quanto experimenta as cachaças artesanais que ele faz. A famosa cachaça Gonçalves é fabricada no alambique que fica dentro da pousada!

O Camping Recanto da Paz é a opção mão-de-vaca imbatível da cidade. Localizada a apenas 1,5 km do centro da cidade, sentido Cambuí-MG, tem cozinha com geladeira, pia e fogão à gás à disposição dos hóspedes, banheiros com chuveiros bem quentes e pontos de luz próximos às barracas (R$30pp em 2018). Não tem site, ligue no (35) 3654-1399 ou 3654-1252.

Duas opções com ótimo custo-benefício são a Pousada do Rio (ótima estrutura, a 6km do centro, com um living coletivo muito aconchegante, piscina natural e sauna seca à lenha, envoltas em muito verde e bem próximas do restaurante local) e os Chalés Serra das Águas (próximo à Pedra São Domingos, bem afastado, com uma vista incrível da serra, apenas dois chalés completíssimos, com muita privacidade, aquecimento à gás, lareira, varanda e churasqueira).

Aproveite enquanto a cidade não entra no movimento de campos-do-jordãonização que já começa a invadir Monte Verde  e São Francisco Xavier. Corra pra lá!

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9 pensamentos em “Gonçalves – MG do tamanho do seu bolso”

  1. Atualizando: me indicaram nesse feriado de Páscoa o Camping Recanto da Paz, que cobra.R$ 20 por pessoa. Fica muito bem localizado, à cerca de 1 Km do centro, na estrada para Cambuí-MG. Instalações modestas, mas com bom chuveiro quente. Fica a dica.

  2. Confiram também a dica do (excelente) blog Outro Modo de Viajar: http://acessa.me/a7nq

    Trata-se do “Orgânicos da Mantiqueira”, empresa dedicada a distribuição de produtos orgânicos e biodinâmicos, localizada na Serra da Mantiqueira, com sede lá na boa terra de Gonçalves (MG). Os caras produzem tudo sem uso de agrotóxicos e adubos químicos, através de métodos que não agridem a natureza e mantêm a vida do solo intacta, preservando a terra, matas, nascentes e a saúde de quem consome.

    1. Grande dica. A cidade tem vocação para a produção, comercialização e restaurantes baseados em produtos orgânicos. Agradecemos a menção. Estive em janeiro na feirinha de orgânicos ali do lado do centro e gostei bastante, trouxe muita coisa para casa.

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