Cuba de mochila: treze dias de praia, rum e revolução

Se você já sabe porque deve ir para Cuba e já conferiu nosso Guia de Cuba para Mochileiros, é hora de conferir o relato dessa mochilada que rolou de 05/05 a 17/05/2016, com dados atualizados em 2017. Descrevi tudo que julgo importante sobre Havana, Trinidad, Santa Clara, Viñales e Cayo Largo der Sur, exploradas com calma em treze dias muito bem aproveitados. Espero que gostem e coloco-me à disposição para responder às dúvidas que surgirem. Buen provecho!

DIA 1

Quem não gosta de se surpreender, não pode ser mochileiro.

Cuba me surpreendeu logo no primeiro contato. Pouco mais de uma hora depois do táxi me deixar na casa da Sra. Isabel, já estava nos arredores do Passeo del Prado, caminhando de mãos dadas com minha esposa sob o lusco-fusco do entardecer. O primeiro contato com Centro-Havana me assustou um pouco, dada a antiguidade dos imóveis, com suas fachadas mal conservadas e o aspecto decadente dos equipamentos públicos. Em cinco minutos de caminhada, entretanto, já caíra no famoso calçadão do século XVIII, rodeado de edifícios neoclássicos, belas estátuas de bronze com formato de leões, cavaletes com obras de arte à venda, crianças ensaiando com seus instrumentos musicais e idosos apreciando a paisagem sentados em bancos de mármore bem polidos e limpos. “Havana é o próprio contraste”, pensei.

Ao final do Paseo, já na transição para Havana Vieja, topei com uma rua escura. Já desprovido de meu smartphone, inútil num país quase sem internet (atualização: em 2017 já há hotspots de acesso espalhados pela ilha – saiba mais no site da ETCSA )  consultei aquele que seria meu maior aliado na viagem: o mapa dos arredores que imprimira em casa, dias antes. O caminho para o restaurante que procurava estava correto, minha segurança de caminhar no escuro numa capital desconhecida, nem tanto! Inspirado pelo discurso assertivo de minha anfitriã momentos antes, tomei coragem e prossegui. Poucos passos pude dar, entretanto, quando me dei conta de que estava sendo seguido. De canto percebi sombras atrás de mim, acionando de imediato o sentido-paulista de prontidão. Apertei. As sombras aceleraram também. Pensei “perdi”. Aceleraram mais. Cerrei os punhos esperando pelo pior e me virei. Minha esposa suspirou.

Era um jovem casal, também de mãos dadas, com um semblante tranquilo, temperado por uma irreverência que me incomodou de início, mas acalmou na sequência. “Tranquilo“, disse o rapaz, enquanto pousava sua mão esquerda sobre meu ombro. “Es en Cuba. No hay violencia. Se puede caminar sin tener que preocuparse”. A garota riu e partiram, ele com uma garrafa de rum na mão, ela agarrada a ele, sumindo na noite.

Foi um tapa na cara mais que bem-vindo. Eu estava longe de casa. Eu não sabia de nada. Eu não estava preparado. Eu já estava adorando.

Ainda com o sabor de surpresa na boca, fomos ao majestoso Hotel Inglaterra, comprar na agência da Cubatour nosso pacote para Cayo Largo der Sur ($200, tudo incluso) para onde iríamos em dois dias. Resolvemos tudo em cinco minutos e por volta das 20h chegamos ao El Trofeo para jantar. Cara, que lugar bacana! À primeira vista parece uma construção abandonada, mas logo depois de adentrar a portinha você avança sobre o corredor escuro, desviando do movimento, tateando pelo corrimão envelhecido e topa com uma escada. No primeiro andar, uma porta leva a um elegante salão, com mesas bem atoalhadas, garçons elegantes e um público sofisticado. Fica pra próxima, né? Segundo andar, aqui sim, uma portinha mais simples nos levou a um salão menor, cheio de cortinas, também lotado. Observei que garçons apressados carregavam despejavam mojitos nas mesas e já ia entrando quando uma hostess bastante simpática me arranjou uma mesa de canto – ótima para apreciar o movimento – e em quinze minutos estavam jantando. Por $20, jantamos um bife uruguayo (o parmegiana deles, composto por um gigantesco, alto e suculento corte próximo do contra-filé, coberto com presunto, molho te tomate e muçarela), acompanhado de batatas souté bem temperadas, dois sucos de manga deliciosos e um mojito – o primeiro de muitos – bem feito. Um primeiro dia perfeito!

Dia 2

Acordamos cedo, tomamos nosso desayuno, preparado pela simpática Yamilka, que ajuda a Isabel a receber os hóspedes em casa. Conversamos animadamente com ela sobre Havana, discutindo planos e atrações, quando soubemos que o casal de finlandeses que estava hospedado noutro quarto havia cancelado uma reserva com o Sr. Juan (7763-4418 (fixo); 05-281-0017 (cel); morao@infomed.sld.cu ou juanadrian@nauta.cu) um professor aposentado da Universidade de Havana que trabalhava como guia turístico e taxista. Acabamos honrando a reserva deles e por $20 demos uma boa circulada com Havana, especialmente nas áreas mais distantes do centro, pois este tínhamos planejado explorar à pé. Passeamos pelo Vedado, Cerro, Víbora, Miramar e algumas grandes avenidas centrais. Mas o ouro mesmo foram os relatos desse senhor de setenta anos que viveu muita coisa por ali e sabe tudo de política, história e Revolução.

Juan nos contou que a cidade surgiu em 1520, mas foi no século XVII que se tornou a maior metrópole do Caribe, sofreu muito com ataques de piratas, foi totalmente murada em 1740, entrou no século XX como um parque de diversões ilegais para norte-americanos durante a ditadura de Fulgêncio Batista, decaiu, mergulhou na Revolução em 1959 com Fidel, renasceu, decaiu de novo no chamado período especial dos anos 1990 e hoje revive mais uma vez sob a luz do forte turismo europeu.

Cidade de paradoxos e contradições, Havana é apaixonante. Nos ganhou por sua beleza, imponência, decadência, ressurgimento e intensidade. A arquitetura antiga está sendo revivida pela Oficina del Historiador local, que pode se orgulhar de já ter concluído a restauração de mais da metade de seus numerosos monumentos e edificações barrocas, neoclássicas e arte déco e noveau.  Patrimônio da humanidade pela Unesco desde 1982, Habana Vieja é indescritivelmente bela, com  resquícios da amurada antiga, um castelo, um forte, mais de 800 edifícios dos séculos XVII e XVIII, igrejas, palácios, praças, museus, cafés, restaurantes e bares. Muitos bares.

À bordo do velho Open 1959 com motor de Lada (adaptação recorrente na Ilha!) passeamos pelas arborizadas e quadradinhas ruas de Miramar, passando pelos belos prédios das embaixadas – que destoam totalmente do resto de Havana – e pela pouco discreta  Seção de Interesses dos Estados Unidos. O bairro destoa totalmente do resto da cidade, já que é composto basicamente de palacetes luxuosos da aristocracia pré-revolução, hoje ocupados por prédios públicos, notadamente embaixadas, consulados e escritórios de representação de empresas estrangeiras.

De lá, partimos para a Callejon de Hammel, única decepção que tivemos em toda a viagem. Sendo objetivo, trata-se de uma pequena viela decorada com murais estilo afro, onde trabalham artistas plásticos, poetas e músicos e onde se pratica santeria (religião similar ao candomblé, que funde crenças católicas com a religião iorubá ). Parece legal, mas não é. Similar ao Caminito de Buenos Aires, o local não passa de uma atração pega-turista onde turbas de indivíduos chateiam o turista de forma agressiva para comprar CDs musicais piratas e artesanato pouco autêntico. Caso queira ver por si mesmo,  sugiro que esquive-se firme e educadamente para evitar aborrecimentos. Na volta, pedimos para José parar na Rodoviária  da Viazul para comprarmos passagens para Trinidad e Santa Clara, a fim de economizar no transporte e evitar contratempos.

Fechamos o passeio visitando o complexo da Fortaleza de San Carlos de La Cabaña,  cuja construção data de 1774, quando foram utilizadas as técnicas mais avançadas de engenharia militar do século XVIII para proteger Havana dos ataques de piratas. Além de ser a maior fortaleza construída pelos espanhóis nas Américas, super preservada, é vizinha do Museu Histórico Militar onde ficam expostas a céu aberto as armas do famoso episódio da Crise dos Mísseis de 1962, está próxima do Museu Cabana de Che Guevara e do Cristo de Havana.  A atração é incrível, imperdível, absolutamente emocionante para fãs de história e de quebra, vai te deslumbrar da melhor vista panorâmica de Havana. Vale um comentário: como fui de dia para aproveitar o tour de táxi (acesso difícil, por túnel sob as águas) não fiquei para a cerimônia do Cañonazo que acontece às 21h, mas se você tiver interesse vale pesquisar sobre a cerimônia.

De volta no fim da tarde a Havana, partimos para Havana Vieja para visitar o ótimo Museo de La Revolución e ao pôr-do-sol curtimos os famosos bares frequentados por Hemingway: La Floridita e Bodeguita del Medio. Ambos muito turísticos e caros, mas tomamos apenas um drink em cada, curtimos a música e fechamos a noite jantando no Hanoi – esse sim uma barbada, onde vimos um show muito bacana, comemos uma pescada grelhada e um delicioso lombo suíno, dois sucos de manga e salada – tudo por $10.

Dias 3 e 4

Acordamos muito cedo para tomar nosso desayuno, nos despedimos de Isabel e antes das 7h estávamos no Hotel Inglaterra, esperando o ônibus que nos levaria ao aeroporto. Apesar de algum atraso e correria,  por volta de 8h estávamos fazendo checkin  no aeroporto e antes das  estávamos confortavelmente instalados no quarto do Hotel Meliá em Cayo Largo der Sur. Nunca havia estado num resort na vida, mas julguei que para falar mal precisaria ter passado pela experiência. A ilha é absolutamente linda, com areias brancas e um mar verdíssimo inacreditável, mas a experiência do resort propriamente dita foi exatamente como eu pensava: cara, ostentatória, totalmente divorciada da experiência cubana (e mesmo da caribenha) e totalmente dispensável para quem tem um mínimo de bom senso em relação a natureza, sustentabilidade, desperdício etc. Paro por aqui, mas fico à disposição para responder qualquer dúvida a respeito na área de comentários ao final.

Caribe na veia
Playa Paraiso – um espetáculo da natureza, a praia mais bonita que vi na vida. De longe. Muito longe.

Chegamos no final da tarde do dia seguinte à casa de Isabel, de volta à Havana, já deixando acertado o valor da diária ($30). Ainda deu tempo de visitarmos o Castillo de la Real Fuerza, um forte belíssimo localizado em Havana Vieja, que já vale a visita só pelo belo entorno, mas me surpreendeu pelo museu que abriga na parte interna relíquias de naufrágios que vem sendo explorados no mar próximo à cidade. Belas fotos e muita história nos deixaram famintos, motivo pelo qual voltamos ao Trofeo e repetimos o prato da primeira noite. Tomamos algumas Bucanero Fuerte, minha cerveja preferida da viagem e desmaiamos.

Dia 5

Isabel preparou um desayuno cedíssimo e antes das 8h já viajávamos rumo a Trinidad num confortável e moderno ônibus de fabricação chinesa da Viazul  ($25 a passagem, táxi da Calle Sevilla à Rodoviária por $10). Apesar de começar um pouco tumultuada, pois a garagem da Viazul fica longe do centro, não tem ar-condicionado e é um pouco bagunçada para os nossos padrões (chegue cedo) a viagem transcorreu muito bem e curtimos a paisagem mudando pela janela ao longo das quatro horas de rodagem. O ar do ônibus estava bem gelado e houve algumas paradas para lanche em locais caros, portanto, esteja preparado para gastar ou leve um lanche, além de uma blusa caso seja sensível ao frio.

Chegando a Trinidad, seguimos o conselho clássico de ignorar a turba de jineteros que nos recebe de braços (e bocas) abertos e alugamos um bicitaxi ($3) para a casa que nos havia sido recomendada pela Isabel (Hostal Redentor – Calle Lino Pérez 172; 5825-5718; delvism@nauta.cu) mas quando lá chegamos, já estava lotada. Ali nos atendeu a proprietária Tamara, muito simpática, que sentiu o calor no fogo de nossos olhos, prontamente trazendo uma jarra de um glacial suco de guanábana (parecida com a nossa graviola). Refeitos, fomos de bicitáxi (pago por Tamara) à propriedade da Dra. Mary que mencionei no post anterior.

Passamos horas conversando com a essa adorável senhora, muito culta e politizada, que nos contou sua história de vida e um pouco da história cubana. Perguntou muito sobre o Brasil e diante de nossos relatos, achou que nos parecemos bastante com a cultura norte-americana. Conhece bem as diferenças da vida em Cuba e nos EUA, pois tem família na terra da libertade e costuma viajar no Natal para visitá-la todos os anos. Sua casa é bastante antiga, ricamente decorada e muito bem cuidada por ela sua mãe, uma senhora de idade que vive com ela desde sempre.

Médica, nos recomendou uma refeição leve pois a minha companheira estava um pouco de indisposição estomacal desde a volta de Cayo Largo. Creme de brócolis, arroz, frango criollo, salada, suco de manga e um delicioso flan (pudim) e café cubano de sobremesa foi nosso jantar naquele dia.

Depois de horas trocando ideias, saímos para o reconhecimento da famosa Casa cubana típica em TrinidadTrinidad, uma jóia cubana perdida do tempo. A colônia espanhola de 1850 ainda impressiona com suas mansões coloniais declaradas patrimônio da UNESCO em 1988, em meio ao ar puro que sopra da Playa Ancón ao sul às montanhas Escambray ao norte da cidade, seus inúmeros músicos de rua, o grande fluxo de turistas, jineteros, bares improvisados nas janelas das casas, museus, museus e mais alguns museus. Prepare-se para caminhar bastante sobre os blocos de paralelepípedos que o farão lembrar da Parati carioca na hora.

Em direção à Plaza Mayor, passamos em frente a bolleteria onde compramos nossa passagem à Santa Clara ($8) e adentramos o museu mais famoso da cidade: Museo Historico Municipal ($2), interessantíssimo pelo acervo e pela bela vista que se tem do alto da torre. Imperdível.

Fechamos o dia comprando algum artesanato/lembrancinhas a bons preços nas feirinhas espalhadas pela cidade (há máscaras belamente esculpidas em madeira por cerca de $5, ímas de geladeira criativos e roupas de crochê – tudo de boa qualidade e com preços negociáveis, sobretudo se você deixar claro que é brasileiro e no tiene la plata). Sentamos num dos tantos botecos locais, onde experimentei algumas cervejas bacanas para espantar o calor : Bucanero Fuerte ($1,5, lager bem maltada, adocicada, alcoólica, encorpada e muito saborosa) e uma Mayabe ($1, lager claríssima, aromática e muito) e uma Cristal (pilsen pouco alcoólica, genérica, lembra muito Itaipava). Nas ruas, especialmente à noite, é muito comum a venda de Daiquiris e Mojitos por $1, diretamente das janelas das casas. Clima de festa total. Adorei!

Dia 6

Com as costas um pouco maltratadas pelo colchão mole, acordamos empolgados com o céu azul e sol brilhando: dia de pegar o busão para a Playa AnconPlaya Ancón! Logo após o belísismo desayuno (suco de guanámana, mamão, abacaxi, banana, manga, geléia de goiaba, omelete, queijo branco, pão, chá, café e mel) partimos para a Cubatour (o ônibus com o home da praia no letreiro passa em frente, apesar de não ter nada a ver com ela). Pagamos $2 por pessoa ida-e-volta (te dão um recibo para apresentar no retorno; 4 horários por dia em cada sentido). A praia é muito bonita, com aquelas águas verdinhas, transparentes, calmas e arrogantes. Bares armados com espreguiçadeiras acolchoadas que custam $2 (mas valem mais), mesmo preço da cerveja ou da água de coco. Para onde se olhe, há um garçom com um saca-rolhas pronto na algibeira. Praia confortável, com ótimo banho de mar e estrutura. Tomamos o ônibus de volta lá pelo meio da tarde e julgamos a viagem de 12km tão confortável quanto a ida, apesar de a fila para esperá-lo ficar debaixo do sol escaldante.

Fechamos o dia num show de rua em frente a Casa de la Musica local com mojito na mão e sentados no chão. Nada mais cubano e gostoso.

Dia 7

Nosso terceiro dia  em Trinidad começou mais lento, ouvindo através das frestas da janela um ciclista anunciando “pan, caliente pan” enquanto pedalava pela Calle Rosario. Imediatamente lembramos do café da manhã idílico da Mary e fomos à ele. Por volta das 10h30 já enfrentávamos o calor de 34 graus e seguimos desejosos por mais uma maratona de museus, atrações culturais e líquidos gelados.

O destaque do dia fica para o Museu de la Lucha contra Bandidos ($1), o grande prédio de ocres torres, avistado de praticamente qualquer ponto do centro. Instalado no prédio onde funcionou um antigo convento, o museu expõe fotos, armas, mapas e relíquias diversas da luta contra os grupos contrarrevolucionários que operaram entre 1960 e 1965 nos arredores da Serra de Escambray tentando derrubar Fidel.  O tom romântico não chega a esconder a violência dos confrontos, mas a história é boa e o prédio também tem uma bonita vista da cidade. Há também a carcaça de um avião U2 norte-americanos derrubado nos arredores naquela época. Ali perto, um excelente café espresso na Casa del Tabaco (Calle Jose Martí nº 296, esq. Parque, Trinidad City 9-19h) .

Almoçamos no La Merced um prato de cerdo cozido acompanhado de moros e cristianos e legumes salteados que estava marromeno ($6,10). No fim de tarde, provamos uma bebida nascida nos tempos pré-revolucionários do ciclo do açúcar na região: a canchanchara. Um drink genuinamente caribenho, inventado ali mesmo, naquele desbunde de lugar. Embuído do mais franco espírito estóico, exortei o garçon a me passar a capivara daquele copo que começa amarguinho e vai adocicando conforme se chega ao mel do fundo. Anotei, testei e garanto que duas colheres de sopa de mel batidos com 15ml de suco de limão, bem mexidos, com gelo picado bem pequeno e 40ml de rum (troque por cachaça, se você for Policarpo Quaresma) e 30ml de água com gás (ou tônica, se você for eu) ficam ótimos. Provei no La Canchanchara,  mas pode ser encontrada em vários locais, inclusive vendido na rua, pela noite, em frente a Casa de La Musica.

Demos uma espiada em alguns outros museus menores, como o Romantico e  a Casa de Los Mártires, exploramos a galeria de arte, caminhamos pela feirinha da Calle Toro onde também há muitas galerias de arte e artesanato com preços muito interessantes mas em quantidade intolerável para quem viaja de mochila (fica o aviso para evitar depressão em consumistas incautos). Infelizmente não houve tempo para explorarmos o Cerro La Vigia e o Parque el Cubano, atrações naturais para fãs de trekking e cachoeiras. Na Cubatour havia um cartaz oferecendo excursões guiadas por $15 com almoço com fotos que não nos empolgaram muito, mas se tivéssemos tempo creio que tentaríamos chegar sozinhos (as trilhas parecem curtas) ou negociar o pacote com transporte.

Trinidad por si só vale a pena. A localização da cidade ao lado da serra, exposta ao oceano pelo sul, a torna um cenário perfeito para fotografar ao amanhecer e no pôr-do-sol, coisa que percebemos num fim de tarde em frente ao El Rapido da Praça Carrillo. Sentamos num banco da praça e ficamos alguns minutos observando a garotada jogando bola sob a sombra do casario e aquela serra ao fundo. Se você fechar os olhos e se permitir, sente até um cheirinho de mar.

Fechamos o dia com uma pizza de atum com muçarela no Fando Brothers, que estava apenas OK mas era muito econômica (uma redonda mais duas bucaneros por $6) e tinha música boa. É uma dica para um lugar barato e honesto, mas certamente há opções melhores dependendo do seu bolso. Depois, uma curta caminhada até a Plaza Mayor onde havia, novidade (?!), muita gente dançando, bebendo rum e curtindo a vida para nos despedirmos e  c-a-m-a.

Dia 8

Acordamos cedo, juntamos as tralhas, despedimo-nos de Mary e partimos de bicitaxi (que ela nos reservou na noite anterior) para a rodoviária. O ônibus, também bastante confortável, saiu às 7h30 mas chegou apenas às 11h em Santa Clara. A viagem desta vez não foi tão boa, pois o filme da paisagem na janela além de monótono e essencialmente rural, era constantemente pausado pelas inúmeras-infinitas-inacreditáveis paradas que o motorista fazia para recolher passageiros, malas, encomendas e tranqueiras.

Já em Santa Clara, alugamos uma espécie de lambreta-táxi ($2) para o Hostal Buena Vista e lá chegando aproveitamos para descansar um pouco num dos enormes quartos do casarão antigo adaptado para receber turistas.

Só nesse trajeto já sentimos qualé a da cidade. Pouco turística, feinha, maltratada, Santa Clara vale mesmo pelos monumentos relacionados a Che (quase todos precisando de uma demão de tinta), para sentir a vida real numa grande cidade cubana fora do eixo turístico e principalmente para conhecer o imponente mausoléu onde descansa o guerrilheiro, político, jornalista, escritor e médico argentino-cubano Ernesto Guevara de la Serna. Mas falo dele mais à frente.

Nesse primeiro dia, o destaque foi para o delicioso café espresso que tomei no La Veguita – uma belíssima loja de chaturos que tem uma fachada tão discreta que se você não prestar atenção, passa direto (Calle Maceo, nº 176). Arábica, dulcíssimo, encorpado, com acidez média e um aroma delicioso, certamente foi o melhor café que tomei em toda a viagem. Pau a pau com os melhores brasileiros que se toma em Sampa.

Depois, demos um relax no Parque Vidal , uma grande praça rodeada de prédios históricos, incluindo o famoso “Santa Clara Libre Hotel”, que preservou as marcas de tiros da Batalha de Santa Clara, ocorrida em dezembro de 1958.  No fim da manhã, havia crianças ensaiando instrumentos de sopro em meio a passarada que mora nas antigas árvores que sombreiam os bancos onde sentamos. No fim de tarde, passamos de novo por ali e a atmosfera havia cambiado demasiado: uma banda tocava salsa animadamente e alguns cubanos empolgados dançavam com aquele sorriso faminto no rosto. Bonito de ver.

Um sorvete na Coppelia ($1), um cerco assado delicioso e dois sucos de manga bárbaros num restaurante da Calle Machado ($7), um spaguetti napolitano e duas bucaneros ($3,50) num paladar ali pelo meio da Calle Maceo foram nossos almoço e jantar do dia. Mais servidos e baratos que em Havana ou Trinidad, note-se.

Caminhamos bastante por essa cidade que cresceu mal, preservou pouco de seu passado colonial mas tem como maior legado a vívida lembrança da Batalha de Santa Clara. Em 1958, Che chegou comandou a queda da cidade ao descarrilhar um trem blindado que carregava 400 soldados e armamentos na direção do leste, onde Fulgêncio esperava esmagar a revolução. O fato marca a virada na luta contra a ditadura e foi importantíssima para a vitória da revolução. Está presente nos cartazes, murais, grafites e camisetas dos inúmeros jovens que lotam as ruas no entorno da universidade ou na Casa de La Ciudad, onde fomos parar por indicação do Lonely Planet para checar que tal a cena cultural de Santa Clara. Música, música, música. Não esperávamos nada menos.

Dia 9

Enfim, o grande dia.

Monumento a la Toma del Tren Blindado, Estatua de Che y Niño, Monumento Ernesto Che Guevara– você pode ler sobre eles em guias, sites, revistas e livros, mas nada como a sensação de estar no palco dos acontecimentos. As três atrações não são lá muito próximas, mas a maior caminhada entre eles não passa de 2km e vale a pena, sobretudo pelos icônicos murais artísticos provocativos que ficam no caminho. De posse de um bom mapa, circula-se tranquilamente entre os pontos turísticos e você pode aproveitar para observar o vai-e-vém de uma grande cidade urbana de Cuba, sentindo o deslumbre passar e deixar aquele amarguinho de fundo de boca, cutucando o cérebro de leve. Será que é pior? Será que é melhor? Bem preservado, o museu do trem fica numa praça bonita e estruturada, contando com a escavadeira original utilizada no ataque, fotos, videos, croquis, armas e roupas originais utilizadas na empreitada. Um pouco desgastado pelo tempo, o monumento com a estátua gigante de Che  é o cartão de visitas para o filé mignon da viagem para os amantes de história e revolução: o incrível mausoléu. Nada que eu diga aqui pode traduzir o que se sente em um lugar tão solene, cênico e – por que não? – mítico.

Na volta, saborosas paletas de cerdo e um risoto de pescado muito bem temperado, acompanhados de moros e cristianos e mais algumas bucaneros animaram nosso “almo-janta” no Café Rumbos de Europa, um dos tantos charmosos bares do calçadão central. Local agradável, com boa música e preço justo.

Dia 10

Depois de uma revigorante noite bem dormida, tomamos um desayuno -simples mas gostoso – do hostel e partimos para explorar um pouco mais o entorno do Parque Vidal . De lá, demos uma boa olhada no Teatro La Caridad (grata surpresa : afrescos belos e preservados no interior), no Museo de Artes Decorativas ($3, móveis do século XVIII, só para quem gosta do assunto, vimos por fora) e no Palácio Provincial (néo-clássico, com uma grande e completa livraria no interior).

Já um pouco cansados pelo forte calor, por volta do meio-dia fomos dar uma olhada no Lomo de Caparo – mirante de grande importância no planejamento e execução da famosa batalha. Único caso da viagem, sentimos um olhar pouco amistoso de alguns cubanos que obstruíam a passagem para a subida e como não estávamos lá tão dispostos a subir, passamos. Me lembrei daquele capítulo da punhalada do livro do Gutiérrez… sei lá… não quis arriscar. Entretanto, não posso deixar de observar que conversamos com outros mochileiros que foram e não viram problemas, inclusive adoraram a vista. Não custa dar uma olhada se você estiver por lá.

Esse episódio me fez pensar um pouco. Um significativo contingente dos locais, sobretudo entre os jovens, não parecem tão desejosos de permanecer isolados do resto do mundo, tal qual espécimes de uma experiência antropológica. Esse sentimento raramente transparece aos turistas portadores dos perseguidos CUCs, mas está lá. A garotada quer um naco de vida moderna. Dá pra ver isso quando a garota vê a turista se maquiando num espelho de rodoviária. Dá pra ver quando o garoto vê uma camisa da seleção brasileira com o símbolo da Nike. Mas também dá pra ver, de minha parte, que é possível seguir em frente sem nada disso e curtir a vida. Não haveria um meio termo mais à direita na régua da vida?

De lá, fomos novamente ao calçadão e entramos num bar aleatório onde almoçamos deliciosas hamburguesas de cerdo e bucaneros ($4). Em frente, um violeiro tocava músicas sérias e tristes num espanhol arrastado, difícil de compreender. Seu modo de vestir e falar me lembravam Johny Cash, sua poesia também.

“El pie quiere bailar a su albedrío;
la mano quiere asir; todo es reposo;
la mente fresca: el corazón dichoso;
tal es en Cuba la estación del frío”.

E assim nos despedimos de Santa Clara. Pagamos $16 para a viagem de ônibus a Havana, que transcorreu sem problemas, de geladíssimo ar condicionado. Passei metade do trajeto dormindo, sendo acordado apenas por uma forte chuva, já nos arredores de Havana. Quando chegamos, já havia parado e pudemos pegar um táxi ($10!!) para a casa de Isabel.

Lá chegando, estava cheia. E também como de costume, Isabel nos levou ao apartamento de Sara, nos arredores. Pensa num lugar bonito! Sara aluga apenas um quarto, com guarda-roupa, ar condicionado, geladeira, boa cama, bom chuveiro – tudo amplo limpo e bem decorado.

De lá, corremos para a Cadeca da Calle Obispo para trocar um pouco mais de dinheiro (é a cadeca que fecha mais tarde, às 19h) e compramos um pacote bate-e-volta para Viñales que sairia no dia seguinte, ali mesmo na agência de turismo “Kubanakhan” do Hotel Inglaterra. Cansados, queríamos jantar n´algum local que permitesse cair na cama 5 minutos depois e arriscamos uma pizza (até que boa, $2pp) no Prado 264,  um local, por assim dizer, inesquecível. No mau sentido. Deixa pra lá. Só evite.

Dia 11

Acordamos às seis, tomamos um belíssimo café da manhã preparado por Sara, junto com sua família. Ovos mexidos com cebola, café, leite, pão, queijo e suco de goiaba – ótimo desdejum para enfrentar a viagem a Viñales. Caminhamos até o hotel Inglaterra e o ônibus que passaria às 7h chegou às 8h, lotado de italianos, espanhóis e alemães muito animados e armados com câmeras fotográficas. Na viagem conhecemos um casal de brasileiros (dos únicos dois de toda a jornada!) que estavam começando a trip por Cuba e passamos a eles todas as nossas impressões. Empolgados, anotaram algumas coisas e acabaram nos ajudando a fazer a primeira retrospectiva da viagem, ainda dentro dela. Foi uma companhia bacana, diferente, já um primeiro sinal de retorno à vida ordinária que faríamos dois dias depois.

Sobre o passeio em si, gostamos bastante. Foram três horas de ônibus muito confortável, com bom ar condicionado e uma guia bilingue tolerável que falava apenas o necessário. Notei que sua pele tinha uma textura estranha de papelão, mas eu mal conseguia observar, tamanha era sua obsessão por mexer-se enquanto falava. Preocupou-se bastante conosco por não sermos nativos em espanhol, mas entendemos tudo.

O primeiro ponto de parada é em Pinar del Rio, a 170 km a sudoeste de Havana. Edifícios neoclássicos por toda  parte, com cores vivas e variadas, que dão aquele tom especial a este centro urbano pitoresco que conta com uma catedral e um  teatro – avistados da janela do ônibus – e a famosa “Casa Garay”, de 1892, que produz rum e o famoso licor “Guayabita” . Lá conhecemos a adega, a planta de produção e provamos o licor, produzido com o álcool obtido a partir da goiaba selvagem colhida localmente. É bom, mas nada demais. Curiosa aqui é a presença maciça de propaganda da revolução cubana, com vários murais, quadros, fotografias e pinturas espalhados pelo prédio. Ao final da visita, provamos o licor (ou a aguardente seca, também ali fabricada) e chegamos à loja, que vende a bebida de 1L por ($4) , charutos cubanos de marcas boas a preços razoáveis e alguns outros produtos típicos locais. Bom para quem está sem tempo de procurar e não quer pagar os preços exorbitantes comumente praticados nas lojas mais famosas.

Na saída da loja, algumas adolescentes abordaram mulheres jovens da excurção, pedindo-lhes alguma maquiagem/cosmético que tivessem na bolsa. Diziam que não tinham acesso em Cuba (e pelo que vimos no comércio, não tem mesmo) e por isso queriam uma amostrinha. Já havia lido sobre isso em guias e relatos, mas foi a primeira vez que vi na viagem. Conclui que os cubanos que o fazem concentram-se em paradas de ônibus de excursão. De lá, uma parada no Mirador de Los Jazmines para fotos (bonita vista) e uma plantação de tabaco na “Casa de Benito”, local onde conhecemos detalhes da produção cubana desde a plantação até o processo artesanal dos famosos charutos. Você pode ver seu charuto ser feito na hora e levar para casa sem custo… ou fumar ali mesmo. Gostei muito dessa parte do tour, muito interessante e com um guia que respondia despacito, em detalhes, tudo que os curiosos queriam saber. A imagem das milhares de folhas de tabaco in natura dependuradas para secar é incrível. O cheiro então…

De lá, o tour seguiu para um local conhecido como “cueva del indio”, nada mais que uma caverna onde viveram alguns índios num passado remoto. Para quem conhece grutas e cavernas do Brasil, não há muito que ver. Caminha-se por cerca de cinco minutos, depois uma navegação por mais dez minutos num barco a remo e algumas paradas para fotos das formações geológicas e da saída, muito cênica, onde o sol bate na água translúcida com tons de verde.

O almoço no restaurante San Vicente, a seguir,  foi excepcional e estava incluído no tour: cerco assado, moros y cristianos, yuca (mandioca), salada de repolho com tomate, frutas tropicais, mousse de chocolate meio-amargo (o chocolate cubano tem um sabor bastante peculiar, mais cítrico e terroso que o nosso) e um espresso muito bem tirado ao final . A cantina fica num galpão arejado no Vale Dos Hermanas, onde avistam-se os famosos mogotes (formações geológicas incomuns, presentes apenas em Cuba, na República Dominicana e em Puerto Rico) e uma pintura em rocha (imensa, mas meio sem graça) numa montanha próxima.  Comemos muito e dormimos praticamente todo o trajeto de volta a Havana, que durou cerca de 2,5h. Não foi um passeio incrível, longe disso, mas foi bacana depois de tanto tempo caminhando, decidindo, procurando, perguntando… fazer algo sem precisar pensar muito.

À noite, a ideia era fechar com um jantar no La Guarida, famoso paladar onde foi filmado Morango e Chocolate , que pelas pesquisas serve comida fusion em boas porções, boas para duas pessoas, por cerca de $18. Infelizmente já estava lotado para aquela noite e diante de uma conversa com um casal na volta de Viñales, achamos que não valia a pena caminharmos até lá para tentar uma alternativa. Acabamos jantando novamente no Hanoi, caminhamos um pouco pela Calle Obispo e fomos dormir.

Dia 12

O dia amanheceu um pouco menos abafado que de costume e aproveitamos para caminhar bastante. Fizemos todo o malecón, do Paseo del Prado até o Hotel Nacional. Almoçamos no Paladar Upstairs (cozinha criola saborosa, bom preço, atendimento nem tanto), tomamos um bom mojito no Café Neruda e paramos para admirar a paisagem no Monumento ao General Maceo –  uma representação em bronze do general protagonista Guerra de la Independencia cubana, datada de 1916 e totalmente restaurada. Cada canto de Havana é arte.

De lá, fomos à Heladeria Copelia próxima do Hotel Nacional, antes de explorá-lo devidamente. Com uma fila gigantesca, estávamos desistindo, quando um policial veio nos avisar que há uma fila específica para turistas – que obviamente cobra em CUCs – e é quase inexistente. O sorvete foi OK, mas ver aquela galera toda na fila, em pé, no sol, enquanto tomávamos o nosso em mesas confortáveis à sombra não foi uma experiência muito legal.

Já o hotel, simplesmente incrível.  Construído em 1930 de frente para o mar, tem uma arquitetura extraordinária, imponente, mesmo já não possuindo o famoso Casino Internacional. Mas o night club Casino Parisien e o Starlight Bar no terraço ainda estão lá: a atmosfera dos anos 30 está presente na construção, nos músicos, no bar, na vista, na fumaça dos charutos e no tilintar dos drinks no balcão. Não pedi nada, só tirei fotos e curti muito o pôr-do-sol . Note que o hotel foi palco de batalhas, tem rajadas de balas cravadas em alguns trechos da fachada e canhões escondidos no terraço, que só são vistos por quem está no hotel, nunca pelos barcos que vem pela costa. Atração imperdível, fechando um dia especial.

Na volta, pegamos a Avenida Salvador Allende, depois Símon Bolívar e terminamos nas costas do imponente Capitolio – em reformas no ano de 2016 – passando pela fábrica de charutos Partagás. Lá dentro, um tour rápido e interessante, além de alguns descontos para compra direta. Do lado de fora, alguns jineteros tentavam vender seus puros de cooperativa, sem sucesso.

Fechamos o dia comendo um lanche no Café Francesa (bom e barato) e assistindo alguns músicos de rua em frente o  Centro Galego de Havana, belíssimo complexo arquitetônico que une um centro cultural vibrante com o Gran Teatro Alicia Alonso – sede do ballet nacinonal cubano, recentemente reinaugurado. Alguns locais dançavam, outros fumavam e mais alguns bebiam.  Curtimos a vibe e fomos para casa já com aquela sensação de que estava acabando…

Dia 13

E acabou.

Arrumar as malas, comprar alguns souvenires, caminhar um pouco pela manhã, últimas fotos, encaixar as garrafas de rum, charutos, cervejas e livros na mochila. Organizar as ideias, anotar acontecimentos, refletir sobre valores. Revisitar fatos. Analisar acontecimentos. Comparar jeitos de viver, de sentir, de sobreviver.

Relembro aqui, como dica, não esquecer de separar $25 em espécie – taxa de saída do país, cobrada diretamente no controle de imigração. Após, há apenas uma lanchonete com preços relativamente altos e uma loja com produtos regionais de preços levemente acima da média de Havana – ótimo para queimar os últimos CUCs.

Último dia é sempre parecido. Café-caminhada-abraço-mochila-táxi-aeroporto-passaporte-Panamá-Guarulhos-Sampa-cama. Nada demais. Aquela sensaçãozinha meio angustiante de “quero mais” misturada à saudade da sua cama estavam presentes, claro, mas com um temperinho mental diferente. Uma certa agitação.

Sinto que levarei algum tempo para processar essa viagem. Talvez precise voltar lá para tomar mais uma dose. De tudo.

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