{"id":1341,"date":"2015-06-15T23:51:00","date_gmt":"2015-06-16T02:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/omochileiro.wordpress.com\/?p=1341"},"modified":"2017-04-30T07:58:11","modified_gmt":"2017-04-30T10:58:11","slug":"uma-jornada-inesquecivel-pelo-salar-de-uyuni","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/2015\/06\/15\/uma-jornada-inesquecivel-pelo-salar-de-uyuni\/","title":{"rendered":"Uma jornada inesquec\u00edvel pelo Salar de Uyuni"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: justify;\">Relato completo com tudo que voc\u00ea precisa saber para uma das travessias mais c\u00eanicas da Am\u00e9rica do Sul<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Amigo, acha que vale a pena ver o Cementerio de Trenes? Ou vou direto a Uyuni?<br \/>\n<\/em><em>&#8211; Se vale a pena ver o <\/em>Cementerio<em>? Claro que vale, mas n\u00e3o sei se vale ir AT\u00c9 L\u00c1\u00a0pra ver!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/06\/2014-chile-bolimg_3825_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1403\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/06\/2014-chile-bolimg_3825_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3825_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que vale.<\/p>\n<p>Parafraseando Paul Theroux , &#8220;a jornada \u00e9 o mais interessante de tudo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que aquele senhor troncudo, com as marcas do tempo esculpindo-lhe o rosto, n\u00e3o poderia imaginar que a imensid\u00e3o daquele lugar\u00a0e sua natureza t\u00e3o imponente causam um sentimento t\u00e3o forte e amb\u00edguo no mochileiro,\u00a0que ele se sente pequeno ante sua for\u00e7a, mas extremamente privilegiado\u00a0por venc\u00ea-lo na jornada. Para aquele homem era s\u00f3 um ponto no mapa, para mim era a forma mais completa de liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali mesmo me despedi do breve amigo, na porta do sagu\u00e3o do aeroporto de Calama. Entrei na van para nunca mais v\u00ea-lo, ao mesmo tempo em que me despedia de mim mesmo.\u00a0De um &#8220;eu&#8221; que n\u00e3o existiria mais da mesma maneira.<\/p>\n<p>Mas vamos ao que interessa.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muitas formas de conhecer o famoso Salar e certamente a\u00a0mais interessante \u00e9 fazendo a travessia que sai do Chile, em San Pedro do Atacama, e vai at\u00e9 a cidade boliviana de Uyuni, por\u00a0quatro longos, cansativos e incrivelmente proveitosos dias.<\/p>\n<p>A seguir, um pouco\u00a0do que vi e vivi por ali. Espero que gostem, tor\u00e7o para que seja \u00fatil.<\/p>\n<p><strong>A Ag\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da ampla pesquisa que fiz antes de sair de casa, s\u00f3 decidi qual ag\u00eancia contrataria quando cheguei ao Atacama. Queria ouvir algumas impress\u00f5es pessoais, pesquisar mais e sobretudo pedir dicas a algu\u00e9m que fosse experiente, mas que n\u00e3o tivesse nada a ganhar. Depois de muito perguntar e bisbilhotar, optei pela <a href=\"http:\/\/www.travelestrelladelsur.cl\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Expediciones Estrella Del Sur<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea ler\u00e1 muito a respeito da import\u00e2ncia de escolher uma boa ag\u00eancia e h\u00e1 uma s\u00e9rie de dicas batid\u00edssimas a respeito no farto material que a internet prov\u00ea sobre o assunto, ent\u00e3o vou resumir apenas o que acho verdadeiramente relevante: escolha uma ag\u00eancia\u00a0que tamb\u00e9m tenha escrit\u00f3rio em Uyuni. Fala-se muito sobre carros muito velhos (verdade) que quebram bastante (verdade), motoristas ruins (verdade) e at\u00e9 motoristas b\u00eabados (deve ser verdade) al\u00e9m de\u00a0tudo que pode acontecer a voc\u00ea se acabar se perdendo por algum motivo e for obrigado a passar a noite no g\u00e9lido Salar de Uyuni sem equipamento adequado (uma dolorosa verdade). Entretanto, \u00e9 fato que a esses riscos, todo viajante que se proponha a atravessar o Salar est\u00e1 sujeito. Problemas s\u00e3o raros, mas acontecem. E a internet est\u00e1 cheia de relatos deles.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3749_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1391\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3749_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3749_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenha em mente que apesar do que te disserem, n\u00e3o h\u00e1 telefones via sat\u00e9lite, os carros n\u00e3o t\u00eam GPS, os motoristas n\u00e3o fazem curso algum e os carros n\u00e3o s\u00e3o revisados periodicamente. O que ocorre \u00e9 que a ag\u00eancia que voc\u00ea escolher\u00a0em San Pedro <strong>n\u00e3o<\/strong> \u00e9 nem mesmo a ag\u00eancia que vai te levar na viagem. O \u00f4nibus da ag\u00eancia vai te deixar na fronteira e te apresentar para o seu motorista e respectivo ve\u00edculo, que pertence a outra ag\u00eancia na Bol\u00edvia (ou \u00e9 at\u00e9 mesmo um <em>freelancer, <\/em>pago por viagem<em>)\u00a0<\/em>ent\u00e3o pouco importa qual ag\u00eancia voc\u00ea vai escolher em San Pedro, a \u00fanica exig\u00eancia \u00e9 que ela seja tradicional e\u00a0exista na outra ponta do teu itiner\u00e1rio\u00a0\u00a0para que no caso de ocorrer algum imprevisto, voc\u00ea n\u00e3o fique na m\u00e3o. <a href=\"http:\/\/www.desertadventure.cl\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Desert<\/a>, <a href=\"http:\/\/incanorthtours.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Incanorth<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.cordilleratraveller.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cordillera<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.colquetours.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Colque Tours<\/a> \u2013 as quatro maiores ag\u00eancias de San Pedro, s\u00e3o uma op\u00e7\u00e3o segura. Alternativamente, voc\u00ea pode optar pela <a href=\"http:\/\/travelestrelladelsur.cl\/index_ing.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Estrella Del Sur<\/a>\u00a0&#8211; que \u00e9 fraquinha nas atra\u00e7\u00f5es do Atacama, mas tem escrit\u00f3rio nas duas cidades e bastante tradi\u00e7\u00e3o na travessia do Uyuni. Acabei optando por esta \u00faltima e fechei o tour por US$140, pre\u00e7o na m\u00e9dia, que inclui \u00a0transporte, alimenta\u00e7\u00e3o completa e acomoda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veja: a n\u00e3o ser que seu\u00a0or\u00e7amento esteja realmente apertado, n\u00e3o vale a pena pegar uma ag\u00eancia econ\u00f4mica, que cobre valores substancialmente mais baixos. E isso n\u00e3o tem nada a ver com o ve\u00edculo que vai te transportar pelo deserto de sal, pois eles s\u00e3o todos bem parecidos. Tem a ver apenas com a qualidade da hospedagem que voc\u00ea utilizar\u00e1 no deserto e o aumento do risco de atraso.\u00a0A quest\u00e3o \u00e9 que se o \u00f4nibus que te leva \u00e0 fronteira quebrar ou atrasar demais,\u00a0voc\u00ea pode perder a sa\u00edda dos carros na Bol\u00edvia e consequentemente\u00a0a manh\u00e3 toda, pois os tr\u00e2mites de aduana boliviana\u00a0s\u00e3o bem chatos e os carros partem\u00a0todos no mesmo hor\u00e1rio. Da mesma forma, se voc\u00ea pretende voltar a San Pedro, \u00e9 melhor se cercar de garantias de que aparecer\u00e1 algu\u00e9m para te pegar em Uyuni.\u00a0S\u00e3o contratempos que podem &#8220;matar&#8221; uma viagem com tempo mais apertado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 hospedagem,\u00a0varia bastante. H\u00e1\u00a0certa diversidade\u00a0de tour econ\u00f4micos, com pousos em lugares diferentes, com\u00a0varia\u00e7\u00f5es de roteiros que se adequam conforme a \u00e9poca do ano, as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e os humores das autoridades locais. Alguma pesquisa nos relatos de blogs por a\u00ed j\u00e1 mostra quatro ou cinco rotas diferentes ao longo dos \u00faltimos cinco anos. Informar-se previamente quanto ao roteiro em San Pedro n\u00e3o ajuda em nada: quem decide por onde se vai passar \u00e9 a ag\u00eancia na Bol\u00edvia. Prepare-se.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_2302_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1390\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_2302_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_2302_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O certo \u00e9 que a \u00fanica hospedagem decente \u00e9 a do Hotel de Sal, que rolou \u00a0pra mim no segundo dia de travessia. As hospedagens do primeiro e do terceiro dias beiram o improviso e s\u00e3o muito, muito prec\u00e1rias. Prepare-se para banheiros com \u00e1gua congelante, vazamentos diversos, mal cheiro, vento entrando por buracos na parede, colch\u00f5es empoeirados e muito, muito frio, sobretudo no inverno. Em geral n\u00e3o \u00e9 nada que vai mat\u00e1-lo, s\u00e3o poucos dias, mas \u00e9 necess\u00e1rio estar preparado para condi\u00e7\u00f5es severas em caso de mau tempo e eventuais problemas com as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, principalmente se voc\u00ea tiver um organismo sens\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda quanto aos preparativos, optei por seguir\u00a0os conselhos de quem j\u00e1 havia ido: na\u00a0noite anterior troquei uma parte dos pesos chilenos por bolivianos (voc\u00ea vai precisar de 250Bs para para usar em Uyuni e fazer os pagamentos de entrada dos parques, <strong>que n\u00e3o aceitam moeda estrangeira<\/strong>); \u00a0comprei tr\u00eas garrafas de 1,5l de \u00e1gua para beber e tirar o sal do corpo; me abasteci de chocolates meio-amargos, ma\u00e7\u00e3s e biscoitos (a comida servida \u00e9 boa, mas n\u00e3o \u00e9 farta); deixei a cargueira num <em>locker<\/em> do <em>hostel<\/em> e montei uma mochila de ataque\u00a0para levar comigo na travessia.<\/p>\n<p><strong>Primeiro Dia\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro-me como se fosse hoje da sensa\u00e7\u00e3o que tive ao deitar na cama no <a href=\"http:\/\/www.booking.com\/hotel\/cl\/hostal-talar.html?aid=1274212&amp;no_rooms=1&amp;group_adults=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Campo Base<\/a> na noite anterior.\u00a0A ess\u00eancia de uma viagem assim \u00e9 inesperada e incomum e isso fazia meu sangue flamejar. Minha mente girava e eu n\u00e3o conseguia me acalmar, tamanha a ansiedade pela jornada\u00a0. Mesmo assim, insisti e o cansa\u00e7o venceu a ansiedade: cinco ou seis horas de sono depois,\u00a0acordei bem disposto e animado, pouco antes das sete. Com tempo suficiente para largar a mocha no <em>locker<\/em>\u00a0que me haviam gentilmente franqueado, tomei caf\u00e9 com calma e caminhei sorridente at\u00e9 a\u00a0sede da ag\u00eancia. De l\u00e1, um simp\u00e1tico \u00f4nibus me levou com cerca de quarenta convivas at\u00e9 a fronteira com a Bol\u00edvia.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3498_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1374\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3498_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3498_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passado o controle chileno, o que esperar da fronteira com a Bol\u00edvia, ali bem no meio do deserto? Uma apertada\u00a0cabana em L, mal rebocada, com janelas de vidros fixos, atrav\u00e9s dos quais pouco se podia ver e uma bela bandeira nacional tremulando no topo. Do lado de fora uma consider\u00e1vel fila de mochileiros aguardava, esfregando as m\u00e3os, ajeitando gorros e fechando z\u00edperes. O frio era intenso e o vento cruel, mas a espera era inevitavelmente desabrigada. Logo o \u00f4nibus nos cuspiu no clima boliviano e rapidamente fomos informados para entrar na fila,\u00a0carimbar\u00a0o passaporte e aguardar. O \u00faltimo contato chileno se deu no bem-vindo caf\u00e9 da manh\u00e3 oferecido num banquinho retr\u00e1til, composto de ch\u00e1 de <em>\u00a0manzanilla <\/em>com bolachinhas, chocolate frio e bananas. Ainda mastigando, agradeci meio sem jeito o sorriso do\u00a0oficial de imigra\u00e7\u00e3o boliviano que soltou um <em>brasile\u00f1os siempre bienvenidos.<\/em>\u00a0A seu lado, uma foto alegre de Evo Morales dava boas-vindas aos incautos mochileiros.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3444_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1371\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3444_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3444_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sa\u00edda da cabana, alguns\u00a0Toyotas Landcruiser\u00a04\u00d74 dos anos 90 estavam enfileirados e os <em>viajeros<\/em> foram divididos em grupos de cinco a seis pessoas pelos motoristas. Aqui mais um lance de dados define a sorte do mochileiro: um Toyota com\u00a0o para-brisa trincado, um motorista sisudo chamado Jos\u00e9 e um grupo de cinco mochileiros formado por um ingl\u00eas, uma indiana naturalizada escocesa e dois australianos, que n\u00e3o falavam uma palavra em espanhol. Jos\u00e9 j\u00e1 foi logo avisando que tudo que f\u00f4ssemos precisar at\u00e9 \u00e0s 18h daquele dia deveria ficar numa mochila menor, dentro do carro e que n\u00e3o haveria excess\u00f5es. A travessia seria dura, o toyota chacoalharia bastante e as cargueiras ficariam enroladas em lonas e amarradas no teto, do lado de fora. Traduzi suas palavras para o ingl\u00eas aos meus convivas e partimos depois de cinco apressados minutos organizando nossos percentes. Duas horas de m\u00fasica t\u00edpica boliviana depois, algumas parcas informa\u00e7\u00f5es limitadas ao nome dos lugares e avisos sobre o clima, tr\u00eas grandes possas (lagoas?) de \u00e1gua salgada\u00a0atravessadas\u00a0\u00a0com habilidade\u00a0\u00a0pelo motorista, chegamos \u00e0 bel\u00edssima\u00a0Laguna\u00a0Verde, onde ficamos at\u00e9 o fim da manh\u00e3.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3464_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1372\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3464_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3464_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira atra\u00e7\u00e3o do Salar j\u00e1 d\u00e1 o tom do viagem: incredulidade. Uma bela por\u00e7\u00e3o de \u00e1gua emoldurada numa camada de sal esbranqui\u00e7ada, que muda de cor\u00a0conforme a\u00a0dire\u00e7\u00e3o do vento. \u00c9 quando Jos\u00e9 rasga a catarse da galera explicando\u00a0\u00e9 a\u00a0presen\u00e7a de magn\u00e9sio, carbonato de c\u00e1lcio e ars\u00e9nico que d\u00e1 \u00e0 lagoa sua cor de jade neon, enquando pede que caminhemos <em>despacito<\/em>\u00a0\u00e0 sua volta, por conta dos\u00a04.400 metros de altitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/06\/2014-chile-bolimg_3699_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1401\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/06\/2014-chile-bolimg_3699_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3699_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a>Como se n\u00e3o fosse suficiente, o vizinho Licanc\u00e1bur e\u00a0seus 5.800 metros nos vigiava como um sentinela. N\u00e3o h\u00e1 pre\u00e7o que pague a beleza do lugar, que manteve o n\u00edvel na seguinte Laguna Blanca. \u00c1guas calmas, horizonte tr\u00eamulo e umas vastid\u00e3o aterradora formam aquela solit\u00e1ria por\u00e7\u00e3o de terra do deserto, vez por outra invadida por revoadas de p\u00e1ssaros singularmente coloridos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3624_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1382\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3624_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3624_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentado ao lado de Jos\u00e9, no banco dianteiro do passageiro, tentei puxar conversa por alguns minutos, mas logo vi que ao contr\u00e1rio dos chilenos, que falam em rajadas, este boliviano era fechado e suas parcas palavras flu\u00edam com um humor seco e formal. Notei que com o passar das horas ele amolecia vagarosamente, mas permanecia muito atento \u00e0 estrada e ao painel de instrumentos do jipe. Vencidos o\u00a0Deserto de Dali e termas de Chalviri, Jos\u00e9 nos preparou um surpreendente delicioso\u00a0almo\u00e7o de macarr\u00e3o com salsichas, p\u00e3o, sucos e legumes salteados. Meia hora depois, as\u00a0montanhas alaranjadas e as pedras foram desparecendo e voltamos \u00e0 paisagem vasta e brilhante do deserto.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3583_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1379\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3583_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3583_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no meio da tarde, encontramos pela primeira vez alguns jipes de turistas e seguimos em\u00a0comboio por alguns minutos at\u00e9 a <em>Aguas Termales de\u00a0Chalviri<\/em> onde um vento gelado rasgava a pele anunciando que o dia j\u00e1 passava da metade. Mesmo assim, sacabamos as roupas e\u00a0entramos nas piscinas vulc\u00e2nicas. A experi\u00eancia me pegou de surpresa, mas felizmente tinha uma bermuda apropriada na mocha e me joguei.\u00a0Obviamente, aquela leve e passageira sensa\u00e7\u00e3o de arrependimento veio na hora de tirar o pesco\u00e7o para fora da \u00e1gua e voltar \u00e0 jornada, mas o que estava feito, estava feito. Da\u00ed pra frente a temperatura come\u00e7ou a cair vertiginosamente e \u00a0quando passamos pelos <em>Geyseres Sol de Ma\u00f1ana <\/em>j\u00e1 t\u00ednhamos alguma ideia do que enfrentar\u00edamos \u00e0 noite. Antes de fechar o dia, faltava a famosa\u00a0<em>Laguna Colorada<\/em> com suas nuvens de flamingos cor-de-rosa,\u00a0quando Jos\u00e9 parou subitamente, balbuciando algo num espanhol inintelig\u00edvel antes de bater a porta e verificar os pneus. Trocou o traseiro esquerdo em dez minutos, recusando ajuda e com a mesma habilidade com que tinha dirigido o dia todo. Um homem not\u00e1vel, aquele baixinho mal-humorado.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3620_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1381\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3620_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3620_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fruto do acaso, chegamos um pouco mais tarde \u00e0 Colorada do que o previsto, o que nos franqueou menos tempo de estada, mas uma luz mais interessante para fotografar. Desconfio que a toada mais apressada de Jos\u00e9 at\u00e9 nosso pouso tamb\u00e9m se refere ao imprevisto, mas de qualquer forma, alguma adrenalina \u00e9 sempre bem-vinda num fim de tarde sul-americano. A luz do sol acabou\u00a0num albergue distante pouco menos de duas horas da <em>Laguna: <\/em>uma habita\u00e7\u00e3o espartana, com grandes vidros emoldurando um grande corredor por onde se via com dificuldade as portas dos quartos e uma placa no topo da porta que dizia &#8220;Hostal Huaylla&#8221;.\u00a0Lembrei, nesse momento, dos insistentes avisos do atendente da ag\u00eancia acerca da simplicidade da &#8220;hospedagem&#8221; e n\u00e3o vi ali nem mais, nem menos do que ele descreveu.\u00a0Local muito\u00a0simples, mas livre de poeira, sem chuveiro, \u00a0com quartos compartilhados para cerca de 8 pessoas cada, com um banheiro que flertava com o n\u00edvel &#8220;inutiliz\u00e1vel&#8221;, \u00e1guas geladas como navalhas nas torneiras e tr\u00eas grandes mesas no corredor onde s\u00e3o servidos um lanche da tarde e uma refei\u00e7\u00e3o quente antes de dormir, por volta das 21h. Saladinha de tomate com cebola, creme quente de carne com legumes,\u00a0macarr\u00e3o com molho vermelho e sucos variados abrandaram o frio, mas deixaram meu est\u00f4mago arredio, provavelmente pela combina\u00e7\u00e3o com os mais de 4.500m de altitude. Na tentativa de dormir melhor, biquei uma tacinha de vinho chileno barato e arrisquei uns goles de\u00a0<em>Pace\u00f1a<\/em>, mas o sono demorou a vir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cobertores eficientes e a segunda pele de cal\u00e7a e camisa, entretanto, garantiram prote\u00e7\u00e3o integral contra os 10 graus negativos l\u00e1 de fora e amenizaram meu mal estar quando acordei com uma leve tontura, por volta de quatro da manh\u00e3. Tomei um dramin, ouvi um pouco de m\u00fasica do que restava da bateria do celular e me desculpei mentalmente por apelar para a modernidade, mas ali, solit\u00e1rio e \u00e0 beira de algo mais s\u00e9rio, achei que podia. Mas o\u00a0tempo passa devagar no escuro. Com algum inc\u00f4modo nas costas pelo colch\u00e3o gasto e moleng\u00e3o, arrisquei levantar-me e acender uma lanterna, mas\u00a0as janelas cobertas de gelo e o ru\u00eddo do vento nas frestas do corredor me desanimaram. Estranhamente sentia um pouco de calor, o que me fez tirar a segunda pele das pernas e afastar um pouco o cobertor. Uma dor de cabe\u00e7a leve mas constante me incomodava, alguma\u00a0palpita\u00e7\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o, tudo efeito da altitude e do frio severo. Meditei um pouco, me situei ali no meio do deserto, fazendo uma viagem incr\u00edvel com paisagens \u00fanicas e lembrei que era um privilegiado. Deitei, me acalmei e consegui cochilar por algum tempo, despertando com os socos de Jos\u00e9 na porta, avisando que o <em>desayuno\u00a0<\/em>seria servido.<\/p>\n<p><strong>Segundo Dia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes das 7h j\u00e1 est\u00e1vamos\u00a0arrumados e tomando caf\u00e9. O ch\u00e1 de coca quente com p\u00e3o, manteiga, gel\u00e9ia e frutas me revigorou mais\u00a0r\u00e1pido do que esperava e em\u00a015 minutos j\u00e1 estava no Toyota, ansioso pelo que viria. A paisagem no caminho do Deserto de Sioli era bel\u00edssima, repleta de flamingos, pedras em formatos inusitados, montanhas serpenteando o horizonte e um vulc\u00e3o fumacento \u00e0 noroeste. Estava feliz, agitado e bem-humorado, apesar do crescente clima de apreens\u00e3o que tomava conta de meus amigos. Jos\u00e9 n\u00e3o parava de olhar o painel de instrumentos, vez por outra diminu\u00eda a velocidade e botava a cabe\u00e7a para fora procurando alguma coisa, depois voltada a dirigir normalmente e tornava a completar seu ritual misterioso, sem dizer uma palavra. Puxei papo, perguntei do carro e suas respostas sa\u00edram frias como uma sopa fria, apesar da animada m\u00fasica boliviana ao fundo.\u00a0\u00c0 cada frase, traduzia para o ingl\u00eas para o pessoal do carro, mas eles n\u00e3o me devolviam a gentileza quando falavam muito rapidamente entre eles. Eu estava sozinho nessa.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3565_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1377\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3565_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3565_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vencemos o Sioli, passamos pela <em>Arbol de Piedra<\/em> e admiramos as inacreditavelmente belas <em>Lagunas Altiplanicas <\/em>antes do almo\u00e7o<em>. <\/em>Jos\u00e9 nos preparou \u00a0um delicioso rango de arroz, queijo ,ovo frito, pur\u00ea de batata, salada de pepino com tomate e belas bananas maduras de sobremesa.\u00a0Demoramos um pouco para comer e todos os outros\u00a0jipes j\u00e1 tinham ido embora enquanto Jos\u00e9 ainda limpava a lou\u00e7a e n\u00f3s admir\u00e1vamos a paisagem sentados na grama e fotografando as centenas de flamingos que brincavam sobre as \u00e1guas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3540_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1376\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3540_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3540_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por volta das duas da tarde deixamos a lagoa e Jos\u00e9 recome\u00e7ou seu ritual, agora parando de um em um quil\u00f4metro, saindo do carro, abrindo o cap\u00f4 e verificando alguma coisa. E assim fomos atravessando o deserto, debaixo do\u00a0c\u00e9u azul iluminado por um sol p\u00e1lido e um vento cada vez mais gelado.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_4052_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1369\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_4052_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_4052_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que o carro parou. Jos\u00e9 saiu, abriu o cap\u00f4 e dessa vez demorou-se a verificar o motor. N\u00e3o aguentei e sa\u00ed. Ofereci para segurar\u00a0manter a tampa aberta enquanto ele olhava o radiador. Puxou a mangueira para fora, soprou, cuspiu e tornou a coloc\u00e1-la. Tirou a outra ponta, olhou dentro do radiador e foi a\u00ed que eu entendi: o reservat\u00f3rio de \u00e1gua estava repleto de sal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os jipes que cruzam o Salar tem uma prote\u00e7\u00e3o especial, debaixo do c\u00e1rter, que mant\u00e9m o motor a salvo do sal que voa dos pneus e penetra quando o carro atravessa po\u00e7as mais fundas. Aparentemente, no nosso caso, n\u00e3o foi suficiente. Jos\u00e9 torceu o nariz, fechou o cap\u00f4 e me disse para entrar no carro,\u00a0dizendo que \u00edamos voltar. Voltar para onde, perguntei. Para a lagoa, felizmente, era s\u00f3 at\u00e9 a lagoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E l\u00e1 est\u00e1vamos n\u00f3s, debaixo de um frio intenso que come\u00e7ava a piorar\u00a0com o cair da tarde, de volta \u00e0s belas Lagunas Altipl\u00e2nicas. Jos\u00e9 parou o carro, abriu o cap\u00f4, desceu um gal\u00e3o do teto do Toyota e p\u00f4s-se a caminhar para a lagoa, enquanto meus colegas olhavam at\u00f4nitos. Preocupado, fiz\u00a0men\u00e7\u00e3o em segu\u00ed-lo, mas ele logo retornou e come\u00e7ou a esgotar o\u00a0reservat\u00f3rio. Depois de tr\u00eas viagens, o radiador estava mais limpo e tornou a funcionar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3750_resized1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1386\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3750_resized1.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3750_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a>Oferecemos usar um pouco de \u00e1gua mineral que t\u00ednhamos para lavar os p\u00e9s e beber e Jos\u00e9 aceitou de pronto, completando o tanque e finalizando o servi\u00e7o. De volta ao roteiro original, mais tranquilos, pudemos nos divertir com a tocada mais\u00a0<em>hard<\/em> que Jos\u00e9 deu para alcan\u00e7ar as Lagunas Honda e Ca\u00f1apa num hor\u00e1rio razo\u00e1vel. L\u00e1 chegando, seus colegas de outros jipes j\u00e1 estavam manobrando para nos seguir, dado o adiantado da hora e nossa aus\u00eancia repentina. Tudo certo, apreciamos a bela vista, tiramos fotos e seguimos viagem.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3762_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1364\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3762_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3762_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda sem ar de t\u00e3o bela que era a\u00a0Honda, fiquei impressionado como Salar de Chiguana, com po\u00e7as que ficavam douradas ao p\u00f4r-do-sol, emoldurando o horizonte cor-de-rosa com o Volc\u00e1n Ollague ao fundo. Lhamas e Viscachas surgiam do nada e sumiam como miragem. Momentos \u00fanicos, m\u00e1gicos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3611_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1380\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3611_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3611_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o cair da noite, chegamos a \u00a0uma grande e bonita constru\u00e7\u00e3o branca: o hotel de sal Tambo Loma. Totalmente diferente do abrigo da noite anterior, o hotel tinha quartos bonitos e amplos, \u00e1gua morna nos chuveiros (luxo!), tomadas para carregar\u00a0eletr\u00f4nicos e um\u00a0delicioso e farto jantar. Foi perfeito para dar uma relaxada, jogar conversa fora e ainda curtir um vinho com mochileiros\u00a0de tudo quanto era lugar do planeta. \u00c0s 23h a energia foi desligada e fomos dormir, n\u00e3o sem antes dar uma chegada do lado de fora e sentir a temperatura abaixo de zero da qual ficar\u00edamos bem abrigados naquela noite.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3499_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1375\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3499_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3499_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inabal\u00e1veis, quatro motoristas trabalhavam ainda at\u00e9 aquela hora. Vulcanizavam &#8220;na\u00a0unha&#8221; um pneu velho, usando apenas uma tira de borracha e um ma\u00e7arico improvisado. Queria\u00a0assistir\u00a0o servi\u00e7o at\u00e9 o fim (e verificar\u00a0qual carro seria &#8220;equipado&#8221; com o distinto\u00a0artefato) mas tanto o sono quanto o frio eram\u00a0motivos mais fortes\u00a0\u00e0quela altura.<\/p>\n<p><strong>Terceiro Dia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dormi bem e acordei disposto, \u00e0s 05h30, mais uma vez com o guia batendo \u00a0\u00e0 porta anunciando o caf\u00e9 da manh\u00e3. Ch\u00e1s, caf\u00e9 bolachas, p\u00e3o com manteiga, bananas e at\u00e9 waffer com gel\u00e9ia de morango estavam servidos. Um bom press\u00e1gio daquele que prometia ser o ponto alto da viagem: o amanhecer no Salar de Uyuni. J\u00e1 t\u00ednhamos visto e vivido muito at\u00e9 ali, plenos de experi\u00eancias e felizes pela oportunidade, mas era imposs\u00edvel controlar\u00a0a\u00a0ansiedade por conhecer o maior deserto de sal do mundo e suas t\u00e3o famosas cores ao amanhecer .<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_4006_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1367\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_4006_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_4006_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O velho toyota desceu rasgando a estrada em zigue-zague que liga Villa Martin \u00e0 porta do Salar. Em pouco tempo, quando\u00a0os primeiros raios de sol derretiam o gelo do teto, j\u00e1 est\u00e1vamos sob o solo branco, ouvindo o tilintar dos pedriscos de sal no c\u00e1rter. As lendas eram verdadeiras: n\u00e3o h\u00e1 sensa\u00e7\u00e3o igual no mundo. Em minutos, o sol invade o deserto de sal, as po\u00e7as de \u00e1gua ficam avermelhadas, a imensid\u00e3o abra\u00e7a tudo que h\u00e1 e\u00a0as pupilas se dilatam, tentando filmar aquela imensid\u00e3o toda. A sensa\u00e7\u00e3o ao ver o Salar pela primeira vez \u00e9 a de que voc\u00ea foi o primeiro a chegar l\u00e1, tal a amplid\u00e3o do horizonte, tal a singularidade da paisagem. Vasto, profundo, ins\u00f3lito, selvagem, m\u00e1gico.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_4014_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1368\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_4014_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_4014_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali todos viramos crian\u00e7as.\u00a0Batemos fotos em profundidade, brincamos com a perspectiva distorcida pela vastid\u00e3o do lugar, exploramos a bela Ilha Hincahuasi\u00a0seus cactos estranhos, lanchamos \u00e0 beira do infinito, tudo como se fosse a primeira e a \u00faltima vez. E provavelmente foi.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3986_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1366\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3986_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3986_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda extasiados, horas depois, partimos para ver (de longe) as minas de sal e paramos rapidamente no Museu de Sal, cujo interesse \u00e9 praticamente zero\u00a0dada a emo\u00e7\u00e3o da jornada anterior. Ainda assim, conferimos tudo e voltamos ao carro para seguir mais algumas horas em dire\u00e7\u00e3o a Uyuni. J\u00e1 nos limites da cidade, ultimamos nosso tour num Cemit\u00e9rio de Trens abandonados, que tamb\u00e9m parecia, digamos, abandonado.\u00a0Pouco tempo depois, Jos\u00e9 nos deixava na deserta avenida central de Uyuni, em frente a uma ag\u00eancia fechada. &#8220;Adeus aos que se v\u00e3o e quanto aos que voltam ao Atacama, estejam aqui neste lugar \u00e0s 16h.&#8221;. E se foi, apressado, com poucas palavras e nenhuma mesura.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_4067_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1387\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_4067_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_4067_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consultei o rel\u00f3gio e percebi que tinha duas horas at\u00e9 o hor\u00e1rio combinado. Rapidamente meus companheiros se foram, tamb\u00e9m sem maiores cerim\u00f4nias e quando dei por mim j\u00e1 estava sozinho, numa rua deserta de domingo, no cora\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul.\u00a0Foi quando j\u00e1 me levantava para\u00a0explorar o pequeno centro, que chegou outro carro, desembarcando um\u00a0simp\u00e1tico casal de\u00a0franceses, que receberam as mesmas instru\u00e7\u00f5es que eu. Desconfiados, logo me perguntaram se eu tamb\u00e9m regressaria a San Pedro, ficando reconfortados ao descobrirem que sim. \u00c9ramos um novo grupo, mais promissor que meu \u00faltimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Combinamos de nos encontrar no hor\u00e1rio combinado \u00e0 frente da ag\u00eancia, enquanto eles buscariam uma farm\u00e1cia e eu algumas cervejas. Logo encontrei um\u00a0uma pra\u00e7a (ou algo que foi uma pra\u00e7a, uns vinte anos antes) com um botequinho formado por meia d\u00fazia de mesas na cal\u00e7ada e um gar\u00e7om bem-humorado. Tomei duas\u00a0<em>pace\u00f1as,\u00a0<\/em>que desceram lev\u00edssimas debaixo de um bravo sol boliviano das duas da tarde. Paguei com gosto, agradeci ao gar\u00e7om e caminhei mais um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 muito para ver numa tarde de domingo em Uyuni. A cidade claramente n\u00e3o trata bem seus dez mil habitantes,\u00a0cujas atividades de lazer se resumem a tomar alguns tragos em frente a trens velhos transformados em monumentos (ou ser\u00e1 o contr\u00e1rio?) ou comprar quinquilharias numa feira que lembra uma vers\u00e3o em miniatura da Rua 25 de Mar\u00e7o em S\u00e3o Paulo. Cansado de carregar a cargueira, voltei ao ponto de encontro e logo estava com\u00a0meus novos amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na espera, pudemos nos conhecer melhor. Sophie e Mathi\u00e9 eram namorados h\u00e1 alguns meses e estavam numa longa jornada pela Am\u00e9rica do Sul, vindos do Equador e do Peru. Pretendiam ainda conhecer os lagos chilenos, atravessar para a Argentina e explorar a Patag\u00f4nia antes de voltarem a Paris. Me deram algumas dicas da Ilha Chilo\u00e9, as quais retribu\u00ed falando-lhes sobre a incr\u00edvel experi\u00eancia em Rapa Nui que tivera no ano anterior. Animados, conversamos bastante em ingl\u00eas &#8211; que Sophie falava bem &#8211; \u00a0e espanhol, idioma com o qual Mat tinha mais facilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso carro chegou com quase duas horas de atraso. J\u00e1 est\u00e1vamos nos preparando para telefonar ao Chile, procurar um hotel ou organizar um bom <em>Plano B<\/em> quando Hugo surgiu com um Toyota ainda mais antigo que os que j\u00e1 t\u00ednhamos visto nos dias anteriores, dirigindo feito um maluco pela avenida\u00a0empoeirada. \u00c0 essa hora quase n\u00e3o havia mais sol e\u00a0o vento j\u00e1 varria nossos abrigos,\u00a0avisando que\u00a0mais uma noite pedia passagem. Sem uma \u00fanica palavra de desculpa, Hugo deu a partida e\u00a0se calou por horas, presentando-nos com m\u00fasica pop boliviana de qualidade duvidosa. Mais\u00a0jovem que Jos\u00e9, Hugo era ainda mais introspectivo, motivo pelo qual desisti de\u00a0puxar conversa. Aproveitei para aprecisar o p\u00f4r-do-sol e cochilar um pouco. Lembro de ter acordado uma \u00fanica vez, quando Hugo parou para abastecer.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_4135_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1388\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_4135_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_4135_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felizmente a viagem foi tranquila. Rodamos\u00a0at\u00e9 por volta de 20h, quando chegamos ao povoado de Villa Mar, envolto em neblina e frio congelante.\u00a0Com alguma dificuldade, nosso motorista encontrou a casa de Roberta, uma simp\u00e1tica gordinha no auge de seus sessenta, setenta anos,\u00a0que nos abrigou\u00a0num quarto simples mas aconchegante, com tr\u00eas camas de solteiro e uma disputada tomada. Infelizmente o banheiro era imundo e a \u00e1gua muito fria, ent\u00e3o n\u00e3o pudemos contar com ele. Compensador, entretanto, foi o jantar: uma bela macarronada \u00e0 bolonhesa, com\u00a0queijo ralado abundante e um vinho chileno supreendentemente honesto. Exaustos,\u00a0conversamos um pouco e apagamos a luz pouco antes das 23h, para acordar\u00a0seis horas depois, com Hugo gritando atr\u00e1s da porta: <em>desayuno! Listos?\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Quarto dia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais quarenta minutos e j\u00e1 est\u00e1vamos na estrada, com o sol \u00e0 pino e muito orvalho em evapora\u00e7\u00e3o, apesar do frio intenso. Hugo dirigiu por v\u00e1rias horas num caminho bastante diferente do que usamos na ida, o qual eu tentava adivinhar pelo mapa, inutilmente, porque n\u00e3o havia refer\u00eancias vis\u00edveis. Sem atrativos do naipe\u00a0daquelas\u00a0belas <em>lagunas<\/em>\u00a0dos dias anteriores, pudemos apreciar alguns pequenos e isolados vilarejos,\u00a0umas poucas planta\u00e7\u00f5es e muitos quil\u00f4metros repletos\u00a0de nada al\u00e9m de sal, pedra e areia.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3923_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1365\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3923_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3923_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de tantos dias\u00a0mais perto do c\u00e9u, na altura de Villa Allota,\u00a0come\u00e7amos a descer em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 fronteira. Flocos de nuvens se moviam rapidamente entre as montanhas \u00e0 leste, enquanto nacos de vapor pairavam sobre a estrada,\u00a0mal se movendo, como v\u00e9us de seda antiga ao vento. Foi quando a monotonia acabou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois tr\u00eamulos indiv\u00edduos acenavam, do meio da estrada, ao lado de um antigo utilit\u00e1rio japon\u00eas. O vento\u00a0varria seus pesados casacos de inverno enquanto esticavam seus pesco\u00e7os tentando enxergar al\u00e9m do p\u00e1ra-brisa embassado de nosso carro. Hugo mostrou-se apreensivo e\u00a0tirou o p\u00e9, num movimento estrategicamente discreto.\u00a0Franziu a testa, examinou o\u00a0retrovisor e diminuiu a marcha, como quem espera pelo movimento do outro jogador. Preocupados, nos entreolhamos sem conversar, num amistoso Fran\u00e7a e Brasil. Mentalmente tentei repassar onde estavam meus valores, percebendo que havia cometido um erro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho por mim que numa\u00a0jornada internacional,\u00a0passaporte e cart\u00e3o de cr\u00e9dito s\u00e3o o\u00a0melhor kit de sobreviv\u00eancia, motivo pelo qual sempre os tenho em duplicata.\u00a0No caso do MERCOSUL \u00e9 ainda mais f\u00e1cil, j\u00e1 que o passaporte\u00a0pode ficar na mala com algum dinheiro e o RG\u00a0na doleira, junto ao cart\u00e3o. Havia mantido dessa forma desde o in\u00edcio da viagem, mas o triunfo\u00a0iminente sobre\u00a0todo o perrengue dos dias anteriores me deixou mole e acabei largando tudo na mochila de ataque, que conservava junto a mim dentro do carro. Se algo acontecesse ali, seria tarde demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os homens\u00a0continuavam sacudindo os bra\u00e7os acima dos ombros e Hugo parecia cada vez mais preocupado. Lancei um <em>que passa,\u00a0<\/em>respondido com murm\u00farios inintelig\u00edveis. A Fran\u00e7a reiterou, com o mesmo resultado. Mais firme, insisti:\u00a0<em>\u00a0<\/em>um<em> no te preocupes <\/em>soou pior que o sil\u00eancio, pouco antes do carro estacionar, \u00e0 cerca de trinta ou\u00a0quarenta metros da barreira e esperou. Os homens se cansaram e\u00a0vieram ao nosso encontro,\u00a0o pequeno \u00e0 minha janela e o parrudo na de Hugo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi quando nosso amigo tomou a decis\u00e3o que eu mais temia:\u00a0ainda com o motor ligado, saiu do carro sem maiores explica\u00e7\u00f5es e foi ao encontro deles pouco \u00e0 frente do carro, exercitando um\u00a0espanhol alien\u00edgena. E ali ficaram, por longos cinco minutos, discutindo acaloradamente, enquanto eu olhava em volta imaginando\u00a0para onde poderia correr se as coisas piorassem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hugo voltou. Desligou o carro. Abriu o porta-malas. Sacou uma mangueira. Subiu no Toyota. Desconfiado, sa\u00ed do carro e\u00a0perguntei qual era o problema. A sorte \u00e9 que o baixinho era mais compreensivo e resolveu falar, <em>despacito<\/em>, para que eu entendesse. Agradeci e voltei para dentro, encontrando o casal de olhos bem abertos, meio curiosos, meio apavorados: &#8220;os caras precisam de gasolina, mas n\u00e3o tem dinheiro, ent\u00e3o negociaram o combust\u00edvel para agora,\u00a0comprometendo-se a pagar ao final da semana, deixando alguma coisa em garantia, que n\u00e3o entendi bem o que \u00e9, mas felizmente n\u00e3o parece que somos n\u00f3s&#8221;. Aliviados, sa\u00edmos do carro, no meio do frio mesmo, para fumar um cigarro e dar algumas risadas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_4120_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1370\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_4120_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_4120_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em quinze minutos estava tudo resolvido e seguimos viagem, chegando \u00e0 aduana boliviana umas tr\u00eas horas depois. Hugo\u00a0desceu as malas com alguma cerim\u00f4nia, agradeceu friamente nossa companhia e sumiu na poeira, aparentemente\u00a0de volta ao caminho por por onde viemos. Antes de partir, informou que dever\u00edamos carimbar os passaportes\u00a0e aguardar pela chegada de um \u00f4nibus que, dever\u00edamos confiar, estaria\u00a0\u00e0 caminho. Felizmente ele chegou r\u00e1pido e\u00a0partimos para a \u00faltima etapa da viagem: a aduana chilena.<\/p>\n<p>Foi provavelmente o procedimento mais dif\u00edcil de imigra\u00e7\u00e3o\u00a0que j\u00e1 passei na vida.\u00a0Passaram as mochilas\u00a0pelo Raio &#8211; X, pediram para abrir, remexeram os pertences, perguntaram sobre drogas, artesanato e comida, nos revistaram, colocaram as mochilas enfileiradas no ch\u00e3o, passaram c\u00e3es farejadores por tr\u00eas vezes em cada mala e revistaram minuciosamente\u00a0o \u00f4nibus. Quase uma hora depois, permitiram que segu\u00edssemos viagem,\u00a0felizmente sem\u00a0maiores incidentes &#8211; exceto por um rapaz que trazia consigo duas perigos\u00edssimas bananas bolivianas, as quais foram direto para o lixo. O Chile estava salvo.<\/p>\n<p>Pontualmente \u00e0s quatorze horas eu estava de volta ao\u00a0hostel <a href=\"http:\/\/www.booking.com\/hotel\/cl\/hostal-talar.html?aid=1274212&amp;no_rooms=1&amp;group_adults=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Campo Base<\/a>, no cora\u00e7\u00e3o de San Pedro. Consegui o mesmo\u00a0quarto que ficara dias\u00a0antes, mas dessa vez sozinho por pelo menos mais quatro horas. Tomei um banho demorad\u00edssimo, fiz uma barba impec\u00e1vel e deitei rememorando a aventura. Havia vencido o Salar, a viagem havia sido \u00f3tima e agora era s\u00f3 curtir seu ep\u00edlogo,\u00a0da melhor forma poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Pouco antes do sol se p\u00f4r, acordei com uma americana e um israelense derrubando coisas no quarto. Me apresentei, conversamos por alguns minutos e em pouco tempo j\u00e1 t\u00ednhamos um bom programa para a noite: empanadas, macarr\u00e3o e algumas garrafas de vinho. O resultado foi uma deliciosa noite de risadas e <em>relax<\/em>, de minha parte pelo incr\u00edvel cap\u00edtulo final de uma viagem \u00e9pica, da parte deles por ser a introdu\u00e7\u00e3o\u00a0de uma jornada que terminaria na semana seguinte, da mesma forma que a minha.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3729_resized.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1392\" src=\"https:\/\/omochileiro.files.wordpress.com\/2015\/03\/2014-chile-bolimg_3729_resized.jpg?w=660\" alt=\"2014 - Chile-BolIMG_3729_resized\" width=\"660\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<p>Viajar \u00e9\u00a0reverenciar um viver intenso, pleno. Quando tudo d\u00e1 certo, apesar das probabilidades, rabiscamos planos maiores. De ir ainda mais longe.<\/p>\n<p>Veja tamb\u00e9m:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">&#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/2015\/02\/18\/relato-uma-semana-no-deserto-do-atacama\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Relato e roteiro de uma semana no Deserto do Atacama<\/a><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><a href=\"http:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/2014\/12\/24\/deserto-do-atacama-para-mochileiros-tudo-que-voce-precisa-saber\/\">&#8211; Guia completo com dicas gerais para mochilar no Deserto do Atacama<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relato completo com tudo que voc\u00ea precisa saber para uma das travessias mais c\u00eanicas da Am\u00e9rica do Sul &#8211; Amigo, acha que vale a pena ver o Cementerio de Trenes? Ou vou direto a Uyuni? &#8211; Se vale a pena ver o Cementerio? Claro que vale, mas n\u00e3o sei se vale ir AT\u00c9 L\u00c1\u00a0pra ver! &hellip; <a href=\"https:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/2015\/06\/15\/uma-jornada-inesquecivel-pelo-salar-de-uyuni\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Uma jornada inesquec\u00edvel pelo Salar de Uyuni&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_bos_mb_destination":[""],"footnotes":""},"categories":[384,4,5,8,9,23,24,27],"tags":[91,155,251,298,304,343,355],"class_list":["post-1341","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america","category-bolivia","category-chile","category-deserto-do-atacama","category-dicas","category-preparacao-4","category-relatos","category-salar-de-uyuni","tag-atacama","tag-dicas","tag-mochila","tag-relato","tag-roadtrip-2","tag-travessia","tag-uyuni"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1341","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1341"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1341\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4016,"href":"https:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1341\/revisions\/4016"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1341"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1341"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/omochileiro.blog.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1341"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}