Cuba para Mochileiros

Um guia para explorar Cuba de mochila

Como já é de praxe, após a introdução, optei por separar o relato com dicas de roteiro do guia com as informações relevantes sobre o destino. Dessa forma acho que fica mais fácil para cada público localizar exatamente a informação que precisa, sem precisar escavar mais textos que o necessário.

Como falo aqui de um sonho de garoto, aviso ao leitor que o texto é longo, as dicas são várias e simplesmente não pude evitar o exercício da opinião quanto às inquietações que a vida em Cuba me despertaram. Não posso negar que além de visitar as belas praias e curtir a história do lugar, boa parte de meu desejo de mochilar onde Che e Fidel construíram a Revolução era investigar por conta própria como é viver uma vida diferente no país mais interessante do mundo. Para poupá-lo, leitor, de paixões repentinas e palpitações angustiantes, optei por deixar a política de lado.

A seguir, portanto, os dados objetivos que pude coletar pessoalmente. Desejo sinceramente que sejam úteis para tranquilizar corações inquietos que ainda não decidiram se vale a pena conhecer um destino tão peculiar.

O que esperar de Cuba?

Para além dos motivos que citei no post anterior, resumiria Cuba numa única palavra: experiência. É um destino mochileiro por excelência.

Leonardo Padura, autor de Os Homens que Amavam os Cachorros, descreveu a ilha sobre uma rigorosa base histórica que me atiçou antes de viajar. Baseada noutras obras do autor, a série Quatro Estações em Havana (disponível no Netflix) também me pareceu um retrato médio da vida na capital cubana, apesar de ambientado nos anos 90, época em que a ilha mergulhou numa crise sem precedentes. Padura ora desconversa (como nessa entrevista dada ao Estadão em 2016) ora é assertivo, como quando afirmou a Carta Capital que Cuba não é o paraíso socialista que alguns pintam nem o inferno comunista que muitos gostam de lhe atribuir. “O cansaço cubano é parte de um cansaço universal. Nós o sentimos porque o vemos todos os dias”, observava.

De outra banda, Pedro Juan Gutiérrez em seu “Trilogia Suja de Havana” foi mais enfático, direto, dramático. Descreve um país contraditório, duro, perverso, mas também sensual, malandro, vibrante.  Os contos do livro tem um quê de Bukowski, quando retratam com humor a podridão da periferia esquecida, mas emulam Henry Miller quando descrevem o burlesco, misturado à filosofia e a excentricidade.

Esses expoentes são um bom começo para quem quer entender as contradições da Revolução e saber o que esperar. Ambos contam histórias bastante críveis que se passam no “período especial” (leia mais aqui sobre os anos noventa em Cuba) ainda que as coisas tenham mudado bastante – e para melhor – desde que a ilha se abriu para o turismo e investimentos internacionais no início do século XXI.

Não importa quanto tempo você passe por lá, mas se dedicar algum tempo a conhecer os cubanos e experimentar um pouco de seu modo de vida, indagar-lhes sobre o que pensam de viver em Cuba, certamente terá uma experiência intensa e diferente. É preciso relativizar os paradoxos, estar preparado para surpresas, questionar os discursos e investigar questões que não conhecemos em casa.  Liberdade, resistência, qualidade de vida, democracia, orgulho, história, progresso. Todos esses conceitos assumem outras acepções do ponto de vista do cubano e este é o ingrediente mágico dessa viagem.

O cubano se parece com o brasileiro em vários aspectos. Arroz com feijão, cerveja, praia, natureza, trabalho, “jeitinho”, malandragem, futebol, cantadas (leia um relato feminino aqui), sorrisos e pequenos golpes de rua (saiba antes). Espere muita música, vinda de todos os lugares, com os mais diversos instrumentos e ritmos. Espere alegria, descontração, simplicidade, calor humano. Saiba que os palacetes e casas de luxo abandonados pela elite de Havana, que fugiu para os EUA quando eclodiu a Revolução estão lá até hoje, muitos deles reformados – uma atração à parte. O rum é o melhor do mundo. O café é ótimo. Há uma livraria em cada esquina, com ótimos livros usados por 1 CUC e novos a partir 4 CUCs.

E há também o mergulho ao passado. Cuba é a terra dos museus e um deles fica num castelo totalmente preservado, com vista para o mar. Mas não é só! Não há publicidade na ilha e isso significa que você não verá outdoors, luminosos, placas, painéis. Apesar de os ônibus de turismo serem novos e as primeiras locadoras de carros para turistas já estarem funcionando nos grandes centros, boa parte dos carros é dos anos pré-revolução e vê-los super conservados rodando por aí é poesia pura. Arroz, feijão e farinha são vendidos a granel. Você não verá supermercados, nem shopping centers. Na rua, em vez de celulares, jovens paqueram e tocam música enquanto crianças jogam bola e velhos conversam animadamente em suas cadeiras de balanço à frente das casas.

E bem, não há praticamente internet. Mas acredite, isso é muito bom. Pode ser um desafio para você (e para o turista acostumado com Googlemaps e Tripadvisor mais ainda!), mas ao mesmo tempo é uma experiência fascinante e uma grande oportunidade de lembrar que o ser humano viveu até os anos 1990 sem ela. E muito bem! Se você não conseguir desligar, há hotéis que cobram 4 CUCs a hora ou alguns poucos centros de wifi da Empresa de Telecomunicações de Cuba – ETECSA, cujo cartão que vale por uma hora custa 2 CUCs.

Esqueça os demais mitos que ouve por aí. Em Cuba não há militares revistando pessoas na rua o tempo todo (não tive contato algum com qualquer militar em toda a viagem). Não há turbas ensandecidas implorando por comida (você mesmo poderá checar os preços subsidiados nas lojas, exclusivos para cubanos). Não há sujeira no chão (não vi um único papel de bala no chão em Havana – repare nas fotos postadas). Não há gente morando na rua. Não há pessoas se atirando ao mar. Não há clima de algum de medo ou aflição. Apesar dos pesares, em Cuba vive-se melhor do que nas periferias brasileiras.

Tenha em mente que a liberdade ao turista é plena, exceto quanto ao comércio voltado aos cubanos, cujos preços são anunciados em pesos (não em CUCs), extremamente baratos. Sugestão: provavelmente você não será impedido de comprar ou comer, mas fica um climão, dada a impressão de que você turista capitalista estaria “trapaceando”, não é mesmo? Os preços são subsidiados pelo regime para quem vive ali. Resista a tentação, jogue o jogo.

Atrações são várias, para todos os bolsos, gostos e idades. O clima é bom. A segurança é plena. Por mais que você tenha o pé atrás com o destino, esses três pontos garantem a viagem para quem tem um mínimo de empatia e mente aberta.

Quando ir a Cuba?

A alta temporada na ilha vai de dezembro a março, mais procurada por turistas das Américas e a altíssima de junho a agosto, quando os europeus (especialmente italianos) invadem o país, complicando a oferta de voos locais, hotéis, hostels e casas. Sol e céu azul? O ano inteiro.

Note que do fim de agosto ao início de novembro acontece a Temporada dos Furacões do Caribe, quando a visita a Cuba não é recomendada. No entanto, saiba que os furacões geralmente afetam um número bastante reduzido de ilhas (geralmente Aruba, Barbados, Curaçao ou Los Roques) e muitas vezes passam desapercebidos. No caso de Cuba, os furacões de 2005 e 2016 causaram bilhões de dólares em prejuízo, milhões de pessoas tiveram que deixar suas casas, ocorreram enchentes, deslizamentos de terra e grandes danos materiais.

O fato é que alguns preços caem significativamente e geralmente não acontece nada. Cuba, aliás, é um bom país para testar a sorte, porque tem sistemas de evacuação muito eficientes e locais seguros de abrigo. Em resumo: se você viajar para lá nessa época talvez consiga economizar um pouco, mas suas férias correm um risco – pequeno – de serem arruinadas e você pode colocar sua vida em risco. A decisão é sua.

Preciso de visto, seguro ou vacinas para Cuba?

Para o visto, você tem duas opções: consulado e aeroporto. Como viajei pela Copa Airlines, me informei pelo número 0800-886-2672 e me confirmaram que eu poderia acertar o visto no balcão de check in sem problemas. A única observação aqui é que  a “tarjeta turistica” se comprada no balcão custa US$20 trocados, na moeda americana. Não há troco, não aceitam cartão. Mas o procedimento é rápido e sem burocracia.

O certificado internacional de vacinação contra febre amarela é obrigatório. Veja como conseguir o seu no hotsite da ANVISA.

Teoricamente, para o turista ingressar no país precisa ter uma apólice de seguro-saúde, pois esse serviço em Cuba é gratuito apenas para os cidadãos. Caso você precise de atendimento, terá de procurar um médico particular ou pagar altos preços. Como é obrigatório, na imigração pode ser requisitado e nesse caso, segundo me disseram, ser adquirido no próprio aeroporto de Havana, por 2,50 CUC/dia. Preferi optar pelo da Porto Seguro, que contratei antes de ir, pagando R$120 por quinze dias. Não utilizei, nem me foi cobrado. Fica a seu critério.

Como são feitos os pagamentos? Qual moeda levar?

Por conta do embargo econômico imposto a ilha desde 1960 (entenda aqui) há uma sobretaxa cobrada no câmbio de dólares feito na ilha, o que torna essa operação desvantajosa. O mesmo ocorre com toda e qualquer bandeira de cartão de crédito (só quando fui a Cuba me dei conta que as principais são norte-americanas). Apenas hotéis internacionais e um limitadíssimo número de estabelecimentos aceitam o plástico e a moeda norte-americana simplesmente não é aceita. Portanto, leve euros.

Na ilha, há duas moedas: os pesos cubanos, para uso exclusivo dos nativos e os CUCs (“peso cubano conversível”), moeda oficial criada para turistas. Sem adentrar em polêmicas, essa artificialidade foi criada para evitar que estrangeiros se beneficiem dos preços subsidiados pelo governo ao povo cubano. Essa é a primeira grande descoberta da viagem: ao contrário do que se ouve por aqui, em Cuba nada é de graça, mas subsidiado e vendido a preços módicos pelo governo para os cubanos.

Aqui opino livremente: não temos mais o costume de andar com grandes quantias de dinheiro em grandes cidades brasileiras. Há quem não ande com um tostão sequer. É algo que infelizmente não se pode evitar em Cuba, mas aí vai uma boa notícia: o índice de furtos é baixo, o de roubos é baixíssimo e a violência é praticamente inexistente. Portanto, não se preocupe. Circular com dinheiro no bolso é totalmente seguro.

Em Cuba as casas de câmbio são chamadas de “cadecas” e a taxa de troca é praticamente a mesma em toda a ilha, variando bem pouco de um dia para outro. A conta quando fui era praticamente de 1 Euro = 1 CUC = 24 pesos. O processo é fácil e desburocratizado.

Como é o transporte em Cuba?

Para o turista, provavelmente o meio mais utilizado é o táxi, que não tem peculiaridades sensíveis. Note apenas que a bandeira noturna é multiplicada por quatro mas a maioria não usa taxímetro, então prefira negociar o preço para o local de destino antes de começar a corrida. Há várias empresas como a Turistaxi e a Transgaviota (carros brancos com faixas coloridas) além dos táxis particulares, que são o ganha-pão extra-oficial de muitos cubanos que com o suor de seu trabalho conseguiram comprar o veículo. A variação almendrón também é um clássico habanero, consistente em chevrolets cinquentões que servem de lotação para turistas que querem bater umas fotos e curtir. Basta acenar, pagar 0,25 CUCs e cruzar a cidade no esquema-patrão. Gorjetas em CUCs são apreciadas, mas não obrigatórias.  Dica de ouro: qualquer transporte não-oficial em qualquer lugar do mundo atrai aproveitadores. Ao entrar, pergunte o preço para onde quer ir e pague assim que se sentar.

Usei bastante táxi em Havana e eis aqui minha indicação: Sr. Juan Luis (telefones : 53-7-763-4418; 05-281-0017; e-mails: morao@infomed.sld.cu ou juanadrian@nauta.cu). Médico e professor aposentado da Faculdade de Medicina de Havana, fluente em inglês e com um espanhol fácil de entender. Falador, solícito, educado, culto e bom conhecedor da cultura cubana, fã-inveterado do estilo de vida daquele país. Dirige um velho Opel 1959 com motor de Lada e me levou para conhecer vários pontos importantes de Havana logo no dia em que cheguei – uma bela introdução à cultura da ilha. De chapa, me apaixonei pela cidade muito por causa das palavras desse senhor cheio de histórias emocionantes, sofridas e interessantes. Investi 25 CUCs por 5h de passeio. Foi magnífico.

Algo que notei logo de cara é que os nativos também usam bastante a bicicleta, principalmente em cidades do interior do país, como Trinidad. Em Havana e Santa Clara, pelo trânsito mais pesado e maior facilidade de transporte coletivo (exclusivo para nativos, dado o preço simbólico da passagem) tem menos bicicletas na rua, mas o movimento ainda supera o que vemos em grandes cidades brasileiras. Muitos moradores alugam magrelas para turistas a preços razoáveis, basta perguntar onde estiver hospedado. Se você, como eu, curte o assunto e adora cinema, vale a pena conferir o premiado curta Havana Bikes, que conta como a história das bicicletas em Cuba se funde com a história da Revolução.

Há ainda a opção turistada extrema: o coco táxi. Nada mais, nada menos que uma moto em formato de coco que leva dois passageiros. Em Havana, o ponto de partida é Havana Vieja, a viagem custa 5 CUCs, para em lugares turísticos.

Ônibus de linha antigos, lotados, mal conservados mas muito baratos,  são subsidiados e exclusivos para cidadãos cubanos. Para viajar entre cidades, a escolha mais confortável são os modernos ônibus chineses da Viazul. Com preços entre 5 e 30 CUCs, pode-se viajar para qualquer cidade da ilha em confortáveis ônibus com ar condicionado.

Onde ficar em Cuba?

Eis aqui, na minha opinião, um ponto fundamental para que o mochilão à ilha caribenha serja completo: deixar os hotéis de lado e hospedar-se na casa de um nativo. Há grande oferta de casas particulares autorizadas (e não autorizadas) a receber turistas, serviço que mudou para melhor a vida de muitos cubanos que passaram a receber em CUCs boa parte da renda mensal (cerca de 8x mais!). As três principais cidades que visitei nessa viagem foram Havana, Santa Clara e Trinidad, todas com boa variedade de casas para escolher.

Infelizmente nem sempre a reserva prévia garante sua estadia. A solicitação é feita por e-mail ou no boca-a-boca, sem adiantamento, o que leva a muitos turistas darem o cano nos moradores. Com o tempo, os anfitriões adquiriram o péssimo hábito de não esperar mais do que uma ou duas horas do horário combinado e logo repassar a reserva para um hóspede candidato que esteja presente, de forma a garantir a féria do dia. Mas certamente nesse caso te levarão a um vizinho que o acolherá (com sorte) no mesmo nível de conforto e preço. Caso aconteça com você, fique tranquilo: com alguma paciência, tudo se acertará.

Mas o que é ficar numa casa particular? É ter um quarto só seu, receber uma chave da casa para entrar e sair a hora que quiser, fazer suas refeições na mesa deles, trocar ideias, receber dicas, tirar dúvidas, praticar seu espanhol, conhecer um estilo de vida diferente. Dica: o café da manhã, muito bem servido e parecido com o nosso, quase sempre é pago à parte. Entretanto, como não há padarias em Cuba como as que você conhece aqui no Brasil, acredito que valha a pena contratá-lo. As frutas em Cuba são muito frescas (a goiaba é incrível!), levam menos defensivos agrícolas que as nossas, leite e café são de boa qualidade, pão com manteiga gostosos, ovos sempre bem preparados e o iogurte tem um sabor bem caseiro. E é mais uma oportunidade de sentar à mesa e conversar.

Minhas experiências nessa modalidade de hospedagem foram todas excelentes. Todas as casas citadas aqui tinham, ar condicionado funcional, café da manhã excelente, arrendadores (como são chamados os proprietários locadores) educados e prestativos, quarto com banheiro privativo e água quente, eram limpas, organizadas, me deram dicas sobre as atrações locais e ficavam em locais seguros e silenciosos durante a noite. Para escolher a sua, o site mais completo é o Cubaccommodation. Para completar sua pesquisa, dê uma olhada no Planeta Cuba e consulte as mais badaladas no Tripadvisor. Se quiser mais segurança, o Hostal Minerva em Trinidad e o Cercotel Lido já recebem reservas via Booking.com.

A começar por Havana, fiquei na casa de uma senhora chamada Isabel Gómez Durán (Calle Consulado, 152, 2do. piso, entre Colón y Trocadero – Centro Habana). Telefones: (53-7) 8601843 y 8674047; Móvil:(53-5) 2836911. E-mail: info@hostalbalcones.com. O táxi do aeroporto até lá custou 25 CUCs, agendado pela própria Isabel, sendo que o motorista me aguardou no saguão de desembarque, com uma tarjeta com meu nome. A diária saiu por 35 CUCs, mais 5 CUCs por café da manhã, opcionais. Achei que o café valeu a pena, pois era bastante variado e delicioso (café cubano de boa qualidade, deliciosas goiabas maduras servidas já cortadas e um delicioso suco de maracujá são os destaques). Ao fim da viagem voltei a Havana e a casa de Isabel estava lotada, então ela me recomendou o apartamento de Sara Maria Cires (Calle Consulado, 158, apto 11, entre a Colón e a Trocadero). Fones: 537-860-1647, 05-270-3710. E-mail: sara.cires@nauta.cu. Ambas ficam bem próximas.

Cabe observar que a casa de Isabel fica em Havana Central, porção mais espartana da capital, provavelmente um retrato mais fiel das condições em que a maioria dos cubanos vivem nas grandes cidades. É um bairro cheio, velho, bagunçado, barulhento, com prédios velhos e sem acessibilidade. No entanto, nas habitaciones que visitamos, notei que essa aparência ruim é apenas externa: as casas são muito limpas, decoradas e bem conservadas do lado de dentro, especialmente quanto a mobília e utensílios, sempre de boa qualidade, feitos para durarem muitos anos.  Apesar da aparência duvidosa, em poucas horas minha esposa e eu nos acostumamos e andamos com toda segurança e naturalidade por ali, inclusive à noite, quando nos demos conta de que carestia não significa violência. A casa fica muito próxima de atrações obrigatórias como o Paseo del Prado e a dez minutos de caminhadada do bairro turístico de Habana Vieja, onde você também pode se hospedar.

Há várias casas particulares ali, especialmente no trecho entre a Calle Cuarteles até a Muralla, bem próximo a Calle Obispo, um calçadão incrível cheio de atrações. Ficar ali é a opção perfeita para quem não gosta de andar tanto, mas quer conhecer os museus e pontos turísticos importantes, pode pagar um pouco mais e não se importa com o enorme movimento de turistas.  Se prefere uma região mais moderna, badalada, pode ficar no Vedado. Menos gringos, mais agito noturno, cultura, arte e restaurantes mais internacionais. Reforço: para uma Cuba mais real e se não se incomodar de caminhar um pouco, vá de Havana Central.

Em Santa Clara, fiquei no Hostal Buena Vista, casarão antigo cuja localização central é excelente : Calle Maceo, 335 (esquina da San Miguel com Nazareno). Telefones: 53-42-215716 ou 53-52-895471. E-mail: santiago@santaclararenta.com. Um casarão antigo, com uma decoração peculiar e um belo jardim ao fundo onde se tomar o desayuno. Qualquer casa ou hostel na região central é a melhor escolha porque é lá onde tudo acontece. Paguei 25 CUCs a diária e 4 CUCs no café da manhã.

Já em Trinidad, fiquei na casa da Dra. Mary Villafana León, médica cirurgiã do Hospital local, que tem apenas um quarto para alugar. Passar alguns dias nessa casa antiquíssima, ricamente decorada e muito bem cuidada que fica na Calle Rosario, entre a Gloria e a Gutierrez (infelizmente não tenho o número) foi certamente a melhor experiência de toda a minha viagem. Foi uma oportunidade única conhecer essa senhora politizada que adora conversar, tem uma história de vida incrível e conhece bem a vida em Cuba e nos EUA (tem família e já viajou para lá várias vezes). Pode imaginar?  A diária saiu por 25, um bom jantar por 8 e o café da manhã por 4 CUCs. Peça o contato aqui. Mas fique tranquilo: Trinidad é bem pequena e em qualquer lugar que você ficar estará próximo das atrações.

Finalmente, caso pretenda visitar os cayos (ilhas paradisíacas do arquipélago cubano), infelizmente não há opção de pousadas, hostels ou casas particulares. Para o meu perfil  – sossego, praias desabitadas e paisagens – escolhi Cayo Largo der Sur  e lá fiquei no resort Sol da rede espanhola Meliá. As praias ali são as mais lindas que vi em toda a minha vida, mas não gostei do resort, principalmente pela comida sem graça e o péssimo atendimento dispensado a não-europeus. Falarei disso num post futuro. Ainda assim, se for sua primeira visita ao Mar do Caribe, recomendo a viagem a pelo menos um dos cayos. Será inesquecível.

Onde Comer e Beber em Cuba?

A cozinha tradicional cubana (ou cocina criolla) é uma curiosa fusão da cozinha espanhola com as culturas taino (povo nativo pré-invasão) africana e caribenha. Espere muito arroz, feijão preto e vermelho, tomate, alguma pimenta, milho, batata doce, lagosta, camarão e  frutas, muitas frutas. Frango e porco são abundantes e muito bem feitos, mas carne bovina é raridade pois o solo pedregoso dificulta o pasto na ilha, além da prioridade ser sempre produção de leite, evitando a importação.  Peixes como o mero e o merlim são abundantes na região e é gostoso prová-los frescos, mas o peixe não é nem de longe o alimento mais consumido por ali. Aproveite os frutos do mar a preços inacreditavelmente baixos ante os praticados no Brasil.

Há pratos típicos deliciosos, como o porco na pua (porco lentamente assado servido no espeto, fatiado de fora para dentro), o arroz com pollo (frango cozido com arroz e muito bijol – similar ao açafrão), bistec de puerco (bife de porco grelhado, marinado por horas com limão e/ou laranja), potage (sopa de feijão com muito alho frito, cebola, pimenta e carne de porco), tostones (banana-terra cozida e depois frita, servida fatiada), moros e cristianos (arroz com feijão sem caldo, misturados) e o uruguayo (picanha suína com creme de queijos e molho caseiro).

Os restaurantes dos hotéis internacionais são particulares, mas em sua maioria os estabelecimentos de rua são do governo, para todos os bolsos e gostos mas sempre com nível mínimo de conforto, limpeza e organização. Há ainda os famosos paladares, restaurantes outrora informais, conhecidos por servir comida caseira e barata. O nome curioso vem da novela “Vale Tudo”, muito popular em Cuba, em que a personagem de Regina Duarte tocava um restaurante simplório chamado “Paladar”. O fato é que tornaram-se tão populares entre turistas que hoje são mais caros que os do governo, aproximando-se dos preços de cozinha internacional dos hotéis.

“Mesa Sueca” é o nosso famoso  bufê self service. “El Rapido” é uma boa rede de fast-food do governo, com lanches, fritas, pizzas, cachorros-quentes e sorvete a preços módicos.  Os “rumbos” são a versão de estrada do “El Rapido” e geralmente ficam em locais arborizados e agradáveis, mas tem preços turísticos. A “cajita” é uma caixinha de papelão ao estilo Habbib´s com arroz, feijão, salada e frango.

Quanto aos hábitos, saiba que os estabelecimentos que servem café da manhã (raros fora de hotéis) costumam funcionar das 7-9h, almoço das 12-14h e jantar das 18-22h. Em Havana é possível encontrar locais que funcionam o dia todo e restaurantes noturnos que vão até próximo da meia-noite, mas não conte com isso.

Já os bares são um caso à parte. São tão emblemáticos que hoje em dia há turistas que vão a Cuba com o propósito exclusivo de frequentá-los. Locais como o La Floridita e a Bodeguita del Medio já se tornaram míticos por sua história e excelência e são visita obrigatória, apesar de um pouco caros e apertados pela quantidade de turistas. Se você é um iniciado, pode mergulhar nessas resenhas do Tripadvisor ou nas análises do completíssimo Explore e montar seu roteiro.

A bebida mais popular é a cerveza, servida muito gelada, o dia todo e em todas as refeições. Experimentei todas que pude e posso recomendar Cristal (leve), Mayabe (levemente amarga), Bucanero (a mais saborosa) e Bucanero Fuerte (minha preferida, mais encorpada). Os cubanos bebem bastante Cacique e Lagarto também, mais baratas.

Há refrigerantes, água e sucos industrializados de boa qualidade que levam marcas cubanas (importados apenas nos hotéis) mas eu recomendo esquecê-los. Os sucos naturais e vitaminas são tão especiais que é impossível deixá-los de lado. Peça um batido (vitamina, sempre feitos de frutas frescas, esqueça as polpas brasileiras). Prove champola é feita com uma fruta nacional deliciosa chamada guanábana misturada a leite açúcar e o guarapo (a nossa garapa, mas menos doce). E peça sucos, à toda hora e qualquer lugar. Goiaba, maracujá, limão, abacaxi, laranja, todos deliciosos.

E o rum. Ah, o rum. Tudo que você precisa saber é que o silver dry (levemente seco) e o carta blanca (o mais jovem, 3 anos) são muito usados em coquetéis, o carta oro (5 anos) e o añejo (7 anos) são apreciados puros no cowboy ou com gelo. Marcas ótimas e conhecidas são Caribean Club, Belicario e Varadero, mas o orgulho nacional é a excelente Havana Club , bebida pura ou nos famosos mojitos e daiquiris. Saiba também que ao presenciar um nativo bebendo rum, é bem provável que ele também esteja degustando um puro.

Che, por Rene Burri

Figura carimbada nos bares e restaurantes cubanos, para o bem ou para o mal, o puro (em português, charuto) é tão popular quanto o rum e sua qualidade é reconhecida internacionalmente. Tida por especialistas como a melhor do mundo, a marca Cohiba é uma atração. Segundo vários cubanos me confidenciaram, Montecristo, Romeo y Julieta e Partagás – nessa ordem – são também marcas de excelência indiscutível. Na ilha é possível encontrar uma infinidade de marcas, visitar fábricas e até plantações. Há também o famoso golpe do “charuto de cooperativa” em que o turista é abordado na rua para conhecer a instituição e comprar alguns puros, mas que de cooperativa não tem nada, além de serem dos produtos serem de péssima qualidade. Diga que não fuma, agradeça e saia andando.

A Seguir

Nas próximas semanas pretendo publicar o relato da viagem. Até lá!

 

Share

1 pensamento em “Cuba para Mochileiros”

  1. Colega, que texto bonito! Pesquisei no decolar os preços de passagem e achei um pouco caro então a viagem vai ter que esperar mais um pouco. Salvei o texto aqui e vou imprimir quanto visitar a ilah de fidel. Obrigado pelas informaçoes e links.Parabéns pelo blog.

Deixe uma resposta